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Governador ataca sindicalistas enquanto constrói sua própria dinastia política

Fátima Lessa*

Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

 

Quando o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, afirmou que “não é profissão ficar 20 anos em sindicato”, a frase não surgiu por acaso. Ela foi usada como argumento para justificar o envio de um Projeto de Lei Complementar (PLC) que limita o tempo de afastamento remunerado de servidores públicos eleitos para cargos sindicais.

O projeto foi encaminhado à Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e, até o momento, não tem data para votação. Na prática, a proposta atinge diretamente o funcionamento das entidades sindicais, dificultando que trabalhadores eleitos por suas categorias possam exercer plenamente a representação coletiva.

Ou seja, não se trata apenas de opinião. Trata-se de política que enfraquece a organização dos trabalhadores.

A fala soou menos como uma análise sobre o mundo do trabalho (Ricardo Antunes) e mais como um juízo político carregado de desprezo por uma das formas mais históricas de luta no Brasil e no mundo.

A declaração chama atenção também por quem a profere. Empresário de origem, ex-prefeito e agora governador em segundo mandato, Mauro Mendes já articula candidatura ao Senado Federal, consolidando uma longa trajetória dentro da política institucional, exatamente o tipo de percurso que costuma ser tratado como experiência e legitimidade. E, em outros discursos, esse percurso costuma ser rotulado como “profissionalização da política”.

Mais do que isso: nos bastidores, circula com força a intenção de lançar sua esposa, Virginia Mendes, para a Câmara dos Deputados. Ou seja, a permanência no poder e a ocupação de cargos eletivos deixam de ser exceção e passam a configurar um projeto familiar de continuidade política, algo bastante comum nas elites brasileiras, embora raramente nomeado como “profissão”.

E aqui surge a contradição central: se permanecer décadas na política é visto como liderança e capital eleitoral legítimo, por que dedicar anos à defesa de uma categoria seria tratado como algo menor ou indevido?

O sindicalismo não é hobby. É trabalho político e social real. Dirigentes sindicais são eleitos por suas bases, respondem a assembleias, enfrentam negociações duras com empresas e governos e, muitas vezes, pagam com perseguição, processos e desgaste pessoal por exercer essa função.

Não há nada de ilegítimo em dedicar a vida à defesa coletiva dos trabalhadores, assim como não há em construir uma carreira política institucional.

Limitar o afastamento remunerado significa, na prática, inviabilizar a atuação sindical, sobretudo para quem depende do próprio salário para sobreviver. Bancar militância sem renda é privilégio de poucos.

O problema não é Mauro Mendes querer continuar na política. Isso faz parte da democracia. O problema é desqualificar trajetórias populares de organização enquanto se naturaliza e até se herda o poder dentro das estruturas do Estado.

Quando um governador critica quem “fica 20 anos em sindicato”, mas constrói uma carreira política contínua e projeta a família para cargos eletivos, o que está em jogo não é o tempo de atuação, e sim quem pode ocupar espaços de poder.

Por trás do discurso de “não transformar sindicato em profissão” esconde-se uma estratégia antiga: enfraquecer a organização popular enquanto se legitima a profissionalização da política institucional, muitas vezes concentrada, hereditária e distante da maioria da população.

Historicamente, sindicatos foram, e ainda são, uma das poucas portas de entrada política para trabalhadores, gente pobre, pessoas que não nasceram em famílias influentes nem com capital econômico. Atacar o sindicalismo é, muitas vezes, atacar justamente essas formas de ascensão coletiva.

Se permanecer 20 anos em cargos públicos eletivos é aceitável, por que permanecer defendendo trabalhadores seria um problema?

A resposta não está no tempo de atuação, mas no incômodo que a organização coletiva provoca em projetos de poder que preferem servidores isolados, frágeis e sem representação forte.

No fundo, a frase revela uma lógica conhecida: a política das elites é vista como vocação; a organização dos trabalhadores, como ameaça.

Se existe algo que ameaça certos projetos de poder, não é o “excesso de sindicalistas”, mas a capacidade que eles têm de organizar, conscientizar e disputar direitos.

O PLC não é sobre modernização administrativa. É sobre controle político. E a frase do governador não é sobre moralizar trajetórias. É sobre deslegitimar quem luta por direitos.

No fim das contas, a mensagem é clara: a política das elites pode ser carreira; a luta dos trabalhadores, não. Ficar décadas na política pode. Ficar décadas defendendo trabalhadores, pelo visto, incomoda.

E isso diz muito mais sobre quem critica do que sobre quem luta.

 

Fátima Lessa*  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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