Primeiro foi a carne, depois o azeite, o café e, agora, são os ovos. Alimentos que escalaram com força a tabela de preços nos últimos meses e se tornaram chave na chamada inflação dos alimentos. São diferentes as causas – do clima ao momento econômico dentro e fora do país, às zoonoses, o custo da alimentação das aves aos hábitos de consumo. No caso dos ovos, que é o objeto desta coluna, até a religiosidade tem sua parte na formação de preços.
Os ovos são símbolos da renovação e renascimento, sentimentos ligados à Páscoa, que comemora a história da ressurreição de Jesus, que, lá no hemisfério norte, também coincide com o início da primavera. Tudo bem que cá nos trópicos estejamos no outono, mas no histórico ‘copia e cola’ das coisas da Europa, a tradição se enraizou por aqui, onde, de fato, o sentimento cristão é o que importa e faz sentido.
Na Igreja Católica, a Quaresma, período de 40 dias que antecedem a Páscoa, é marcada por introspecção e penitência, quando se reduz o consumo de carnes vermelhas e aumenta o de carnes brancas, peixes e ovos. Aqui está a primeira explicação para o aumento dos preços dos ovos: a maior demanda sazonal. É a lei da oferta e procura em ação.
No país, o preço do ovo subiu 15,4%, em média, no mês de fevereiro, a maior alta no grupo alimentação e bebidas. O fator climático também deu uma mão nisso. O aumento na temperatura nas maiores regiões produtoras, como o estado de São Paulo, levou à queda da produção das matrizes poedeiras. O calor extremo estressa as aves que acabam reduzindo a produtividade em torno de 10%. Outro fator que pressiona para cima a cotação do ovo é o preço do milho, que acumula alta nos últimos 12 meses de mais de 40%.
O Cepea/USP estuda há mais de 10 anos o mercado de ovos brasileiro e elenca mais fatores para esta intensa valorização em 2025. Analisa que, no ano passado, os preços caíram por seis meses seguidos, ao mesmo tempo em que subiam os custos dos principais insumos da ração e dos gastos com embalagens. Agora o que está havendo é o ajuste entre custos e preços. O órgão também observa que diminuiu a disponibilidade de ovos no mercado interno no início do ano porque houve o descarte de poedeiras mais velhas.
Pode parecer curioso, mas ainda contam a fisiologia das galinhas e a estação do ano em que entramos. Nesta fase, com dias mais curtos e com menos luminosidade, diminui o apetite das aves que perdem peso. Esse período de repouso também é marcado pela troca de penas, que ajudam as aves a enfrentar o frio do inverno. Elas ainda reduzem a atividade, permanecendo em silêncio para economizar energia. Mesmo com técnicas avançadas para administrar essa transição entre as estações, a produtividade cai nas granjas por alguns meses.
Em Mato Grosso a produção de ovos é bastante significativa, inclusive com exportações do produto. No ano passado, o setor gerou R$ 1,57 bilhão de Valor Bruto da Produção, o que colocou o estado na sétima posição nacional. Pelos últimos dados disponíveis, Primavera do Leste é o terceiro município do país em número de galinhas e de produção de ovos, com 4,3 milhões de aves e 104,9 mil dúzias de ovos/ano. O município vizinho de Campo Verde também tem uma forte produção avícola.
Em Primavera está instalada uma unidade da Mantiqueira Alimentos, que é a 10ª produtora de ovos do mundo e a maior da América Latina. No início do ano, a JBS, líder na produção de proteína bovina, anunciou que comprou 50% da Mantiqueira.
Os preços dos ovos têm rendido manchetes mundiais devido à escassez nos Estados Unidos por causa do surto de gripe aviária, que levou ao sacrifício de mais de 130 milhões de aves. A crise é tão grave que se pode sair de um mercado com apenas um ovo na sacola de compras. E, inclusive, o assunto ganhou interesse policial. O Departamento de Justiça investiga se grandes empresas adotaram práticas anticompetitivas que provocaram a escalada dos preços e a aguda escassez da oferta.
Para forçar alguma queda nos preços, o governo americano anunciou em fevereiro um plano de US$ 1 bilhão que inclui o apoio aos agricultores para evitar a disseminação do vírus da gripe e como suporte às pesquisas de opções de vacinas. O país também passou a importar de países como Turquia, Brasil e Coreia do Sul, e tem estimulado o aumento das exportações europeias. As vendas brasileiras são destinadas ao processamento dos ovos para o uso pet e humano, que abastecem fábricas de massas, pães e biscoitos.
Aqui no Brasil a entrada da gripe tem sido barrada por um robusto sistema de biosseguridade que as empresas seguem à risca. Até agora, houve registros da gripe aviária em aves silvestres, poucos mamíferos aquáticos, algumas aves de subsistência, mas nenhum em granjas comerciais. Na semana passada o Ministério da Agricultura publicou um decreto que suspende, por 180 dias, em todo o território nacional, a realização de exposições, torneios, feiras e outros eventos com aglomeração de aves.
A expectativa é que a produção nacional de ovos cresça 2,4% neste ano. E, mesmo com o preço em alta, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) acredita que o consumo per capita continuará em alta. Em média, cada brasileiro deverá consumir 272 ovos, um aumento de 1,1% sobre 2024.
Os especialistas avaliam que após a Quaresma os preços dos ovos podem cair um pouco, mas não de forma abrupta. É que não se espera queda nos preços de outras proteínas animais, como carne bovina, de frango e suína. E os ovos são ainda uma fonte de proteína menos cara, de grande qualidade nutritiva e sanitariamente segura.
É um alimento funcional, com todos os aminoácidos essenciais e que não pode ser facilmente substituído. O ovo tomou de vez protagonismo nos pratos de diferentes classes sociais e mantém a versatilidade de um ingrediente quase onipresente em tantas receitas cheias de sabor e que também nos alimentam com boas memórias.
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