Gervane de Paula leva sotaque regional à Bienal com obras-denúncia

Foto: Arte/montagem Candy Haesbaert
A 36ª Bienal de São Paulo, “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”, encerrou domingo retrasado (11), com uma edição marcada ‘pela expansão de formatos, territórios e formas de encontro’, além de 120 participações artísticas.
Entre elas, a do cuiabano Gervane de Paula, artista autodidata nascido em 1961, que vive e trabalha no bairro Araés, na capital mato-grossense. A produção de Gervane abrange desenho, pintura, objetos e instalações, abordando questões sociais, ambientais e territoriais.
À coluna, ao fazer um balanço da Bienal de SP, que é a segunda maior Bienal de Arte do mundo, ele disse que a participação “pesou positivamente por ser um evento internacional que dá uma visibilidade grande ao trabalho”.
– “Para mim, que sou um artista que vivo em uma região afastada dos grandes centros culturais, tive a oportunidade de circular meu trabalho. A repercussão veio de vários cantos do mundo e o contato com artistas e obras com certeza foi um momento único. Com o fim da mostra em SP minhas obras vão para alguns países, através da itinerância da Bienal” -, contou Gervane.
Nas palavras do curador Mateus Nunes, a produção do cuiabano “detém potente clamor ecológico, alternando entre tonalidades melancólicas e uma contundente carga denunciatória”. Suas cenas de festividade em seu bairro em Cuiabá, por exemplo, complementam a realidade específica do cerrado ao também abordar com veemência os desastres socioambientais promovidos pela agropecuária latifundiária, pela mineração desregrada e pelos seus indissociáveis lastros de violência”.
De sua parte, Gervane avaliou que, para a arte local, foi importante a participação na Bienal. “Principalmente pelo fato de que não só eu como grande parte dos artistas mato-grossenses produzimos obras com sotaque regional”, frisou.
Ele pontuou que nas criações, mesmo que falem de temas globais, o sotaque está presente, em especial a da capital Cuiabá. “É uma arte que bebe nas manifestações populares para tratar de assuntos políticos, ambientais, culturais e sociais globais”, assinalou o artista.
A 36ª Bienal de São Paulo se inspirou no poema “Da calma e do silêncio” da escritora Conceição Evaristo e durou quatro meses no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com visitação gratuita.
Gervane de Paula acredita que suas obras o levaram à Bienal. “Em 2024, fiz uma retrospectiva da minha trajetória na Pinacoteca de SP e nesse momento consegui chamar a atenção dos curadores, principalmente do curador geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung. Ele acessou meu trabalho na instituição privada MT Projetos, que me representa”. O artista cuiabano citou também os curadores Thiago de Paula e André Pittol.
Segundo a presidente da Fundação Bienal, Andrea Pinheiro, “a 36ª Bienal foi pensada para acolher diferentes públicos, ritmos e formas de estar na exposição, consolidando nosso compromisso com o acesso democrático à arte”.
A designer e publicitária Cândida Haesbaert, atualmente residindo em SP, relatou à coluna suas impressões ao ver as obras do cuiabano na mostra. “Quando entrei na 36ª Bienal não fazia ideia da surpresa que teria ao ler o nome de Gervane de Paula e me deparar com as suas peças. Vibrei de emoção e orgulho de ver um renomado artista da minha terra, da cultura de MT, presente num evento desse porte”.
Cândida declarou que a produção potente do artista, “repleta de carga denunciatória e cenas da cultura de Cuiabá e do cerrado mato-grossense”, a emocionaram. Ela destacou a crítica ao consumo em massa, “em detrimento do meio ambiente, por conta do agronegócio e dos latifundiários que depenam os biomas regionais, além das citações históricas impressas nas peças”.
Eu também visitei a Bienal agora em janeiro, antes do encerramento do evento. Peço à Cândida licença para me apropriar de suas impressões quanto à presença artística de Gervane de Paula no evento internacional. Não deixou nada a desejar em relação aos demais participantes. “As obras do artista cuiabano enriqueceram a Bienal com sua voz de denúncia política e ambiental”, concordamos eu e Cândida.
Quanto às repercussões, Gervane comentou que por causa das mídias sociais ficou mais fácil observar as interações com o público. “Recebi muitas visitas em minha rede social, houve muitos compartilhamentos de imagens de minhas obras, muitas pessoas me parabenizaram pelo trabalho. É uma aventura incrível nesse mundo digital que ainda estou assimilando”, analisou.
Nessa linha de “compreender a potência do evento”, o artista revelou que seus trabalhos foram citados em revistas especializadas de arte em níveis nacional e internacional. Atualmente, ele participa da Bienal das Amazônias, no Museu de Arte Moderna de Medellín (Colômbia), com uma obra em homenagem ao poeta mato-grossense Manoel de Barros.
Parabéns, Gervane. E viva a cultura cuiabana!
Acesse as obras do artista em @mtprojetosdearte
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