O jardim de Maria Olívia numa avenida de Cuiabá

Arte: Candy Haesbaert
Quem presta atenção, ao passar a pé, de ônibus, ou de carro, pode ver que há, no canteiro central da avenida Lava-pés, no trecho quase perto da rotatória do bairro Santa Rosa, em Cuiabá, um espaço com cajueiro, limoeiro, bocaiúva, flamboyant, jacarandá e orquídeas brancas e lilás. Tudo muito bem cuidado, revelando manutenção em dia.
É o jardim de Maria Olívia Tavares, uma cuiabana de 67 anos que, apaixonada por cultivar o verde, faz o plantio de árvores e flores nessa faixa de quase 50 metros do canteiro central, em frente ao edifício Romano, onde mora. Designer, mãe de três filhos e com quatro netos, ela costuma regar o jardim diariamente.
“Não tem horário, quando sobra um tempinho eu corro lá e molho as plantas”, contou Maria Olívia, em conversa com a colunista, da qual participou também a vizinha e amiga Maria Borges. Ambas recordam que os conterrâneos já disseram que Maria Olívia tem o ‘dedo verde’, aquela pessoa com talento natural que vê florescer tudo que planta.
Ela lembrou que já plantou árvores também na Igreja do Rosário, avenida Ipiranga e praça Popular. Na realidade, a dedicação e o gesto espontâneo de Maria Olívia nos inspira a refletir sobre a nossa Cuiabá – que anteontem completou 307 anos de fundação – e o quanto ela precisa de forte atenção e providências do poder municipal para torná-la mais zelada e humanizada.
Principalmente porque a capital passou seu aniversário, este ano, com praças, avenidas e ruas do centro e dos bairros abandonadas – há mato por todo canto e os buracos se multiplicam nas vias públicas. A situação é semelhante a de 2025, quando a Prefeitura não fez festa comemorativa, mas convocou os cuiabanos a limpar a cidade no dia 8 de abril.
Quem se recorda do ano passado, tem em mente que a ideia desagradou parcelas da comunidade e a adesão à limpeza urbana foi muito baixa. Nos dias atuais, em termos de serviços e manutenção de vias públicas em Cuiabá, nada mudou em relação a 2025, podendo-se cogitar que, em algumas áreas da cidade, a situação até piorou.
Mas, voltando ao ótimo exemplo de Maria Olívia, uma moradora de Cuiabá dedicada à revitalização urbana, ela rememora que a iniciativa de cuidar desse trecho do canteiro da avenida surgiu durante a pandemia da Covid-19, como uma forma de fazer o bem e aliviar o estresse. “Comecei plantando caju, para que os frutos servissem aos passantes, daí vieram outras árvores e as flores”, disse.
A vizinha Maria Borges reforça os benefícios do jardim inusitado. “É um respiro, é um alento passar por ali. Se cada um desses prédios nessa avenida imensa reproduzisse a iniciativa, seria uma maravilha para Cuiabá”.
Num trecho do canteiro, Maria Olívia colocou blocos de cimento para travessia de pedestres, para “não machucar nem o gramado nem as plantas”. E, dirigindo-se à amiga, destacou: “Ninguém arrancou nada, né dona Maria? Nem a orquídea pegaram, ninguém mexeu. Eu acho isso interessante, está tudo direitinho, e eu mando limpar sempre”.
Ela relatou que, na época da seca, chega a carregar galões de água da casa do filho para molhar as plantas, por causa das restrições do condomínio quanto ao uso de água. Maria Olívia mora há oito anos no Edifício Romano, o primeiro prédio a ser construído na região, no final de 1989. Antigamente, era uma chácara que se estendia até onde está hoje o shopping Goiabeiras.
Sua vizinha de apartamento, Maria Borges, tem 89 anos e foi uma das primeiras moradoras do Romano. Seis filhos, 10 netos e 11 bisnetos, ela guarda muitas recordações do lugar e demonstra muita alegria ao falar do desejo de Maria Olívia de transformar o espaço do canteiro da avenida em um jardim. “Sim, ela é a mulher do dedo verde”, afirma.
Confesso que minha conversa com Maria Olívia e dona Maria Borges transpassou o tema do ‘jardim no canteiro’ e percorreu memórias familiares, conexões entre figuras históricas locais e o sentimento de pertencimento à cidade, contrastando a Cuiabá antiga com a da atualidade, que, digamos, não é alvissareira.
O saldo do encontro entre cuiabanas já bem vividas (eu, com 72 anos), às vésperas do aniversário da cidade, foi uma troca afetiva sobre o passado de Cuiabá e o desejo compartilhado de vê-la cuidada e focada na dignidade humana.
Maria Olívia é filha do falecido poeta Avelino Tavares, membro da Academia Mato-grossense de Letras; dona Maria Borges é viúva do renomado advogado Arnaldo Borges e eu sou filha de Álvaro Benedito Duarte, alfaiate, ex-vereador de Cuiabá, tudo ‘cuiabanada de quatro costados’.
À mim, a jornalista da conversa, Maria Olívia e dona Maria Borges fizeram um pedido: “Não deixe que personalidades importantes da história de Cuiabá sejam esquecidas, como os antigos médicos de família Silvio Curvo e Alcides Santana; e intelectuais como Estevão e Rubens de Mendonça”, entre outras. Prometi a elas ficar atenta às memórias dos conterrâneos.
Viva os cuiabanos! Viva Cuiabá!
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