MT supera média de UTIs, mas fica abaixo no SUS  

Foto: Breno Esaki, da Agência Saúde

Por Adriana Mendes

“É muito estresse, muita dedicação e muitos problemas. Eu já fiquei afastado por burnout”, relata um médico intensivista de 37 anos. Dudu, como prefere ser chamado, diz que já presenciou situações em que a falta de um leito impediu que a vida de um paciente fosse salva. A escassez de vagas públicas de UTI é uma realidade em Mato Grosso.
O estado dispõe de 2,32 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto e coronariana por 10 mil habitantes, taxa ligeiramente superior à média nacional de 2,23. O número geral, porém, esconde uma desigualdade entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a rede privada, segundo dados do Dossiê Estadual da Medicina Intensiva no Brasil.
Dos 904 leitos existentes no estado, 357 são destinados ao SUS e 547 à rede suplementar. Para os 3,59 milhões de habitantes sem plano de saúde privado, há 0,99 leito por 10 mil pessoas, abaixo da média nacional de 1,30. Entre os 303,2 mil beneficiários de planos de saúde, a taxa chega a 18,04 leitos por 10 mil usuários, ante 6,88 no país. A população estimada de Mato Grosso é de 3,89 milhões de habitantes. Os dados sobre os leitos são referentes a dezembro de 2025.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) afirma que ampliou a oferta de leitos de UTI pelo SUS de 302, em 2018, para 664, em 2026. “Justamente por identificar essa realidade e para combater os vazios assistenciais em Mato Grosso, nos últimos sete anos, o Governo do Estado mais que dobrou a oferta de leitos de UTI”, diz a pasta.
Os dados da secretaria de saúde abrange todos os tipos de leito de UTI disponíveis pelo SUS e registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), incluindo os contratados em unidades particulares. Os números, portanto, têm abrangência e períodos diferentes: os 357 leitos apontados pelo dossiê se referem apenas às UTIs adulto e coronariana destinadas ao SUS em dezembro de 2025; os 664 informados pela SES incluem outros tipos de UTI, como pediátricas e neonatais em 2026.
Segundo a pasta, o Hospital Central, em Cuiabá, e o Hospital Estadual do Alto Tapajós, em Alta Floresta, já foram entregues. Outras três unidades estão em construção em Juína, Confresa e Tangará da Serra, com entregas previstas a partir de 2027. O governo também anunciou hospitais em Barra do Garças, Pontes e Lacerda e Várzea Grande, este último em parceria com a prefeitura. A SES afirma ainda que estuda novos contratos com unidades de saúde para ampliar a oferta de leitos.
Em uma outra frente, o levantamento revela que o estado tem 151 especialistas em medicina intensiva, o equivalente a 3,88 por 100 mil habitantes. São 5,99 leitos de UTI para cada intensivista registrado. Na formação de novos profissionais, de acordo com os dados, há seis programas ativos de residência e 24 médicos residentes: nove no primeiro ano, nove no segundo e seis no terceiro. A taxa é de 0,62 residente por 100 mil habitantes.
Sobre a disponibilidade de profissionais, a SES não comentou sobre a dificuldade de conseguir profissionais para a área. Em nota, afirma que a abertura de hospitais “amplia não apenas a oferta de leitos, mas também a capacidade do Estado de atrair e formar profissionais para atender à demanda crescente”.
Comparação no Centro-Oeste
A desigualdade se destaca também na comparação com os vizinhos. Mato Grosso tem a menor oferta de leitos de UTI pelo SUS no Centro-Oeste: 0,99 por 10 mil pessoas que dependem do sistema público, ante 1,24 em Goiás, 1,31 em Mato Grosso do Sul e 1,77 no Distrito Federal. Entre os beneficiários de planos de saúde, ocorre o inverso: a taxa mato-grossense de 18,04 leitos por 10 mil é a maior da região.
Na formação de intensivistas, Mato Grosso também aparece na última posição regional, com 0,62 médico residente por 100 mil habitantes. O índice ajuda a dimensionar o desafio de ampliar o atendimento, que depende tanto de leitos quanto de profissionais para mantê-los em funcionamento.
Esgotamento nas UTis
O relato de Dudu no início da reportagem encontra eco em um levantamento nacional da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgados na semana passada. Entre 2.338 médicos que trabalham em UTIs ouvidos em 26 estados e no Distrito Federal, 48,5% apresentaram alto nível de esgotamento emocional e 46,4% relataram baixa satisfação com a atividade. Os percentuais se referem ao conjunto de entrevistados no país, não especificamente a Mato Grosso.
“Um sistema de saúde só é resiliente se cuida também de quem sustenta o cuidado”, afirma Cristiano Franke, presidente da AMIB. Segundo ele, a saúde mental dos médicos de UTI “é questão prioritária para políticas públicas, que exige mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde”. Os dados apontam ainda que 31,2% dos profissionais apresentaram esgotamento moderado.
Unidades de excelência e selos de desempenho
Apesar dos desafios de acesso na rede pública, o estado se destaca pelo desempenho de unidades hospitalares avaliadas no levantamento de 2026 do Registro Nacional de Terapia Intensiva (UTIs Brasileiras). Mato Grosso conta com sete UTIs reconhecidas nacionalmente:
UTI Eficiente (4 unidades): Hospital Femina, Hospital H-Bento, Hospital São Mateus, em Cuiabá, e Santa Casa de Rondonópolis.
UTI Top Performer (3 unidades): Hospital e Maternidade Dois Pinheiros (Sinop) , Hospital Unimed Rondonópolis e Medbarra Hospital e Maternidade (Barra do Garças)
O selo UTI Eficiente é concedido a unidades que apresentam baixa mortalidade ajustada e uso otimizado de recursos, enquanto o selo UTI Top Performer representa o nível máximo de excelência, destinado a UTIs que se destacam no país ao combinar eficiência com bons resultados clínicos.
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