COLUNA

Rodrigo Vargas

rodrigov@ehfonte.com.br

Meio ambiente e sociedade no século 21

Crônica de uma cidade cinza

 

Foto: Rodrigo Vargas

O ato era cercado de solenidade. Os discursos, sempre à beira do rio Cuiabá, mesclavam clichês do ambientalismo mais raso e boa dose de autopromoção. Havia equipes de TV, rádio e jornais acompanhando a “soltura dos alevinos” que, asseguravam os promotores, ajudaria a recuperar a abundância do passado.

Vindos de tanques e lançados sem critério técnico em ambiente novo e inóspito, aqueles peixinhos não tinham a menor chance. Morriam na hora, por choque térmico ou químico, ou viravam petisco fácil para os peixes já estabelecidos no trecho. Alguns ainda carregavam doenças e parasitas da criação em cativeiro.

Tais atos não eram de todo sem propósito. Chamar a atenção para a situação precária de um rio é muito melhor do que nada fazer. E houve até quem tenha se estabelecido politicamente passando as manhãs de sábado despejando sacos de alevinos em um curso d’água castigado por esgoto, lixo, assoreamento e degradação das matas ciliares. Um triunfo do simbólico sobre o real.

A estratégia sobrevive até hoje, ainda que sob outros formatos. Um deles envolve eventos de plantio de mudas de árvores que, igualmente despidos de critérios e acompanhamento técnico, costumam render belas fotos para o Instagram e sinalizações emocionadas de virtude. A realidade, em muitos casos, é que a pobre muda recebe atenção apenas naquele momento, para logo depois ser abandonada à própria sorte e não prosperar.

Não sou tonto para achar que o simbólico não tem valor, nem leviano para não enxergar o quanto a consciência ambiental pode se fortalecer nesses momentos festivos. Mas o fato é que a arborização urbana é um equipamento público fundamental, tal como uma praça, um semáforo e as guias da calçada. Não pode depender apenas de boas intenções pontuais e descoordenadas da sociedade civil, mas de uma política ampla e permanente de Estado.

Nos últimos cinquenta anos, a explosão populacional em Cuiabá demandou mais e mais áreas antes cobertas pelo verde. Ocupações irregulares ceifaram áreas de nascentes, beiras de rios e córregos. Outros loteamentos, regularizados sabe-se lá como, soterraram banhados e áreas de preservação permanente. Temos acompanhado inertes à destruição acelerada de recursos naturais vitais para uma cidade que vive pelo menos seis meses de emergência climática todos os anos. Reverter esse processo é também uma questão de saúde pública.

O lado bom é que hoje em dia falar sobre arborização urbana parece ser um daqueles raros temas a unir correntes políticas antagônicas. Todos parecem concordar que é necessário investir cada vez mais nessa direção, fortalecendo as áreas verdes, plantando novas árvores e protegendo aquelas mais antigas que, com suas copas frondosas, já cumprem seu papel com maestria. O problema é transformar a intenção declarada em prática.

Recentemente a prefeitura anunciou um “cronograma de arborização urbana” com a previsão de “intervenções em diferentes avenidas e espaços públicos da Capital”. Para começar, 200 mudas foram plantadas na última sexta-feira ao longo da Avenida Beira Rio. A posse da atual administração, é bom lembrar, ocorreu em 1º de janeiro de 2025, ou seja, há quase 21 meses. Antes tarde do que nunca, alguém poderá dizer. É cedo para comemorar, responderei.

Na prática, além da consolidação de um minhocão de concreto resplandecente entre a avenida do CPA e a Prainha (pelas mãos do governo do Estado), o que vimos no período foi uma série de podas radicais e derrubadas criminosas de árvores que estavam há décadas prestando bons serviços à sociedade. As imagens de antes e depois são dignas de luto e indignação.

Torço muito para que o “cronograma de arborização” seja apenas o começo da retomada do hoje tristemente irônico título de “Cidade Verde”. Curitiba, por exemplo, está investindo R$ 1,2 bilhão numa iniciativa que pretende enterrar 120 quilômetros de linhas de energia e telecomunicações em áreas turísticas e de grande adensamento urbano. Entre outros benefícios, a medida vai permitir a manutenção e o plantio de árvores de grande porte, que não mais irão brigar por espaço com os fios.

Desde 2020, a Prefeitura de São José dos Campos (SP) busca identificar e monitorar a saúde das árvores do município, que são cadastradas, recebem uma placa com numeração própria e um QR Code. Pelo celular, é possível consultar os nomes popular e científico, a altura, as condições de saúde, a localização e os laudos de saúde emitidos pelos técnicos da Prefeitura. Até o ano passado, mais de 75 mil árvores haviam sido incorporadas à base de dados, o equivalente a 95% do total da cidade.

Em 2025, o município do Vale do Paraíba foi reconhecido pela sexta vez consecutiva na iniciativa Tree Cities of the World, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e que destaca quem mais se esforça pela gestão sustentável de suas árvores e florestas urbanas. Ao todo, o Brasil teve 51 cidades incluídas nessa lista. Entre as capitais do Centro-Oeste, apenas Campo Grande (MS) e Goiânia (GO).

Que tal colhermos nas nossas vizinhas exemplos positivos para adaptar à nossa realidade? E que tal se a nova Ilha da Banana puder ser justamente o laboratório para uma nova forma de se planejar os espaços públicos nessa que é uma das cidades mais quentes do mundo?

O que vi até agora não me deixou nada esperançoso, mas creio que ainda resta tempo para uma nova concepção em que o concreto não prevaleça em meio aos infames coqueiros e algumas árvores esparsas.

Nesta semana, estamos vivendo uma intensa onda de calor, com os termômetros batendo os 45 graus. Num contexto como esse, senhores e senhoras, quanto menos cinza, melhor.

 

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