A galinha e as sandálias
Jairo Pitolé Sant’Ana

Foto: Reprodução/Instagram
Já imaginaram a galinha pintadinha, de havaianas, entrando com os dois pés, e de sola, na porta da extrema direita brasileira? Não? Eu também, porque, assim como a terra não é plana, nem em desenhos animados elas usam calçados. Mas há quem assim pense. Como a deputada catarinense Julia Zanata. Em outubro, ela publicou, em suas redes sociais, um vídeo atacando a galinha pintadinha, onde a acusa de “defender a transição de gênero, criticar o capitalismo e exaltar a União Soviética”, extinta oficialmente em 26 de dezembro de 1991, após a renúncia, no dia de Natal, de seu último líder, Mikhail Gorbachev. Portanto, há 34 anos, quando a nobre parlamentar contava seis anos de idade. Só faltou dizer que a coitada era financiada pelo “ouro de Moscou”.
[A expressão “Ouro de Moscou” foi largamente utilizada pela ditadura militar brasileira, em seus 21 anos de duração (1964-1985). Seria uma fonte inesgotável de dinheiro, usado para dar suporte às ações subversivas, atribuídas à oposição e aos esquerdistas brasileiros, desejosos de implantar o comunismo no país, para “tomar sua casa, seu apartamento, invadir suas terras e confiscar seu dinheiro” (finalmente conseguido por Fernando Collor de Mello, em 16 de março de 1990, um dia após sua posse, lembram?). Pois é, as mesmas fantasias ainda ouvidas em dias atuais].
Vamos às havaianas. Bastou a Fernanda Torres, há um bom tempo mal digerida pela extrema-direita, especialmente por “Ainda Estou Aqui”, propor não entramos 2026 com o “pé direito”, mas com “os dois pés” e onde quisermos (“na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê”), para a histeria voltar e os extremos destros se esgoelarem e ameaçarem. Foram vários vídeos ameaçando deixar de comprar a sandália. Porém, o boicote virou fermento. Se momentaneamente as Alpargatas tiveram uma queda de R$ 152 milhões em suas ações, rapidamente se recuperaram e seu ganho chegou a R$ 455 milhões.
Novo parênteses: Curiosamente, a Alpargatas é controlada pela Itaúsa, por sua vez controlada pelas famílias Vilela/Setúbal e Moreira Salles, cujo um dos membros, o Walter, venceu o Oscar 2025 por “Ainda Estou aqui”, dirigido por ele.
Mais uma vez, deram com os burros n’água. Apesar disso, insistem neste tipo de radicalização, taxado pelo professor João Cezar de Castro Rocha, articulista do ICL, como produção de dopamina barata para manter uma parte dos 34% da população que se diz bolsonarista mobilizada o tempo todo. Especialmente a massa acrítica, que acredita em tudo que lê, vê ou ouve em seu whatsapp. Como uma coisa puxa a outra, a monetização (vulgarmente chamado de “faturar uma graninha” às custas da desinteligência alheia) é a meta. A normalização do “ganhando bem, que mal tem”? E, claro, tentar cobrir escândalos, como os R$ 460 mil do flat de Sóstenes Cavalcanti; os R$ 500 mil flagrados com a mãe da deputada Ângela Portela (PP-RR); ou como a própria Julia Zanatta, denunciada à PGR (Procuradoria Geral da República) por enviar emenda a clube de tiro.
*Jairo Pitolé Sant’Ana, é jornalista em Cuiabá
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