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As tragédias se repetem

Jairo Pitolé Sant’Ana*

Foto: Diego Campos/Secom-PR

Exceto para os sem empatia, como, por exemplo, quem disse “não sou coveiro”, em abril de 2020, quando o país somava cerca de duas mil e quinhentas mortes (seriam mais de 700 mil no total) causadas pela pandemia do coronavírus, não há como não se entristecer com a tragédia vivida pelos habitantes de Ubá (onde nasci) e Juiz de Fora (por lá morei 15 anos, antes de me mudar para Cuiabá), na zona da Mata Mineira.

Em Juiz de Fora, li, enquanto escrevo no final da manhã de sexta-feira (27), que já choveu, desde o início de fevereiro, mais de 740 milímetros, o equivalente a 740 litros de água por metro quadrado (maior volume já registrado em um mês na cidade desde 1961), deixando um rastro de 58 mortes, das quais 17 no Parque Burnier, uma área de encosta e relevo acidentado, habitado predominante por trabalhadores de baixa renda, além de três mil desabrigados e 400 desalojados.

Leio ainda que a cidade, 5ª do país no ranking de deslizamentos, possui 130 mil habitantes, de um total 567 mil, morando em áreas de risco. Para agravar a situação, o atual governador mineiro reduziu em 96% as verbas do programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pela chuva”, de R$ 134,8 milhões em 2023, para 5,9 milhões em 2025, ano em que a chuva castigou Ipatinga, no Vale do Aço e zona metropolitana de Belo Horizonte, com 12 mortes e mais de mil pessoas desalojadas.

Desde 1991, ano após ano, as chuvas causaram a morte de quatro mil pessoas e 10 milhões de desalojados no país. Neste período, a região serrana de Petrópolis, que inclui mais sete municípios do estado do Rio de Janeiro, foi uma das mais castigadas: em 2011, com 918 mortes e cerca de 35 mil pessoas desalojadas; e em 2022, com 242 mortes e mais de quatro mil desabrigados. No ano seguinte, em 2023, deslizamentos de terra provocaram 64 mortes em São Sebastião, no litoral norte paulista, e 53, no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul.

Em 2024, entre abril e maio, as chuvas voltaram a castigar. Desta vez no Rio Grande do Sul, atingindo 478 de seus 497 municípios, com saldo de 146 mortos e dois milhões de desabrigados. Por falar nisso, na quinta, 26, o prefeito de Lageado, uma das cidades afetadas, foi preso pela Polícia Federal por suspeita de desvio de recursos para recuperação dos estragos causados pelas chuvas.

Em Cuiabá, onde alguns logradouros, como a avenida da Prainha, viram rios, já choveu 274 milímetros em fevereiro, obviamente deixando em pânico moradores em áreas de risco, embora não haja um número definido sobre quantos vivem nessa situação. Ainda bem que há avisos sobre tempestades, recebidos nos celulares, alertando para possíveis perigos. A última enchente por aqui foi em 1995, com milhares de desabrigados. Em 2001, um forte temporal, desabado em abril, causou 15 das 27 mortes registradas no país naquele ano e desabrigou cinco mil pessoas. Infelizmente, tragédias como estas se repetirão, em algum lugar deste país, em 2027, 2028, 29…

PS.: As últimas notícias dão conta o total de mortos subiu para 72 – 65 em Juiz de Fora e sete em Ubá

*Jairo Pitolé Sant’Ana, é jornalista em Cuiabá

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