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Colorido e desigual

Jairo Pitolé Sant’Ana*

 

IA: mosaico Freepik

“Eu não tenho escrúpulos (honestidade, honradez, caráter, moral, etc.). O que é bom, a gente fatura; o que é ruim, esconde”. A frase foi dita em 1º de setembro de 1994 pelo então ministro da Fazenda, Rubem Ricupero, nos bastidores de uma TV, antes de entrar ao vivo no jornal. Captada pelas antenas parabólicas, a conversa vazou, revelando o marketing político do lançamento do Plano Real, que acabou de vez com a hiperinflação (no início daquele ano, os índices superavam 3.000%). No entanto, deixou como herança o aumento significativo da dívida pública, consequência, em boa parte, das altas taxas da Selic em vigência desde então (nestes 32 anos, basicamente se manteve nos dois dígitos, chegando a 40% em 1999. O pequeno alívio foi durante a pandemia da Covid 19 (2020-21), quando caiu para 2%).

Não se quer dizer com isso que a defesa do governo catarinense tenha escondido os dados do Censo de 2022 sobre perfis da população, especialmente sobre cor ou raça, até porque, me confirma a pesquisa na internet, eles foram colocados à disposição dos internautas ao longo de 2023 e 2024. Mas não usou seus números no documento enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) para defender a lei proibindo cotas raciais em instituições de ensino financiadas pelo estado de Santa Catarina. Preferiu, segundo o noticiado, citar dados de 2021, em que 81,5% da população se declara branca, enquanto pretos e pardos, 18,1%. Ou seja, lá seria o estado mais branco do Brasil, quase um “branco total” de sabão em pó de propaganda.

Seria, porque pelo Censo de 2022 não é mais. Perdeu a liderança para os gaúchos. Dos 8,5 milhões de riograndenses, 78,42% se declararam brancos, enquanto entre os catarinenses, este percentual caiu para 76,28%. Em terceiro lugar, vem o Paraná, com 64,57%, e quarto, São Paulo, com 57,78% de sua população autodeclarada branca. (O IBGE parte da premissa de que a própria pessoa sabe qual é a sua cor ou raça).

Mas, para por aí. No mapa brasileiro, tanto para cima quanto para os lados, a situação se inverte. A população branca se encolhe e a negra, com os pardos em destaque, passa a ser maioria. Em todos os outros estados brasileiros, sem exceção. Com destaque para a Bahia, onde a população negra (pretos e pardos) chega a quase 80%, além de ser o quarto em população indígena, superior, inclusive, à mato-grossense.

Em resumo, o mapa demográfico brasileiro mostra uma população bem mais diversa da preferida pelos defensores de seu embranquecimento, como a melanina desacentuada das fotos de Machado de Assis e Nilo Peçanha. A maioria, 55,51%, é negra (pardos, 45,34%; pretos, 10,17%), ficando os brancos em segundo lugar, com 43,46%. Os povos originários se restringem a 0,6% ou pouco mais de 1,227 milhão de indivíduos e os amarelos (orientais), com 60% fixados em São Paulo, somam 0,42%.

Resumo da ópera: somos um país multicolorido e, para lembrar os que insistem em ignorar, muito, mas muito, desigual.

 

*Jairo Pitolé Sant’Ana, é jornalista em Cuiabá

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