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Festejo das Yabás reúne fé e ancestralidade no enfrentamento à intolerância religiosa

 Fátima Lessa

O som dos atabaques ecoa pelo terreiro enquanto crianças observam, aprendem e participam dos ritos que atravessam gerações. No centro da celebração, o Festejo das Yabás reverencia as orixás femininas do Candomblé, Oxum, Iansã, Iemanjá, Nanã, Obá, entre outras, e reafirma o terreiro como um espaço vivo de fé, cultura, educação e resistência a intolerância religiosa.

Neste ano, a presença das crianças marcou de forma especial o Festejo das Yabás no Ilè Okowoó Aṣè Iyá Lomin’Osà. Elas chamaram atenção também por tocarem atabaques, alguns já são confirmados na condição de Ogãs. O Ogã é escolhido pelos orixás e confirmado pela casa para exercer funções específicas dentro do terreiro. Ele não incorpora orixá; sua missão é dar sustentação ao culto.

Essa participação ativa das crianças está diretamente ligada à forma como o conhecimento é transmitido no Candomblé. O aprendizado acontece principalmente pela vivência cotidiana, e não apenas pela idade. Por isso, ver crianças tocando atabaques e sendo confirmadas como ogãs faz parte do processo natural de transmissão dos saberes religiosos e da continuidade ancestral.

Essa lógica de continuidade também se expressou em uma das cenas mais carregadas de simbolismo da celebração: a apresentação pública da nova Iyawo do Ilè, um bebê de sete meses consagrado ao orixá Yewá. Divindade rara no Candomblé, Yewá é associada à brisa da manhã, ao silêncio e às transformações pessoais. Representa o movimento de renovação e mudança e, assim como o orixá Oxumaré, tem na cobra um de seus principais símbolos, expressão do ciclo contínuo das transformações. É importante ressaltar que a mãe da bebê é iniciada para Oxumaré.

De acordo com o Olorí Egbé Bosco D’Sàngó, mais do que uma festa, o Festejo das Yabás é um ato coletivo de memória e afirmação. As yabás representam forças fundamentais da existência, como maternidade, justiça, ancestralidade, fertilidade, transformação e cuidado. “Celebrá-las é também reconhecer o papel central das mulheres, sobretudo das mulheres negras, na manutenção das religiões de matriz africana no Brasil”, afirmou.

No encerramento da celebração, Olorí Egbé Bosco D’Sangó, destacou a centralidade da infância na continuidade da religião. “As crianças são o futuro do Candomblé. São elas que enfrentam o racismo e o preconceito religioso no dia a dia, nas escolas e nas ruas”, afirmou, ressaltando a importância da formação religiosa desde cedo.

No terreiro, a infância não é silenciada nem excluída. Ao contrário, é educada pelo exemplo, pelo canto, pela dança e pela convivência. Meninos e meninas aprendem que o sagrado faz parte da vida cotidiana, que o respeito se constrói coletivamente e que a ancestralidade é fonte de identidade e pertencimento.

Ao contrário dos estigmas impostos às religiões afro-brasileiras, o que se vê no Festejo das Yabás é organização, cuidado, alegria e profundo compromisso comunitário.

Do ponto de vista ritual, as cerimônias públicas no Candomblé de Nação Ketu têm início com o Xirê, momento em que se reverenciam todos os orixás cultuados. Em seguida, ocorre a Roda de Xangô, quando os orixás se manifestam nos corpos de seus iniciados, que retornam ao salão trajados e adornados para o Rum, momento de celebração, dança e presença divina.

No Ilè Okowoó Aṣè Iyá Lomin’Osà, o Festejo das Yabás é marcado por rituais de grande significado, como o rodar dos balaios de Oxum e Iemanjá, orixás donas do festejo, acompanhadas de Logunedé, filho de Oxum.

Entre tambores, saias rodadas e olhares atentos das crianças, o Festejo das Yabás reafirma que o terreiro não é apenas lugar de culto, mas também de formação humana.

Em tempos de violência simbólica e perseguição religiosa, celebrar as Yabás é resistir com fé, ancestralidade e axé.

 

Fátima Lessa*  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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