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Golpe, água e inteligência artificial

Jairo Pitolé Sant’Ana*

Foto: Scott Rodgerson/Unsplash

 

Embora uma minoria comemore amanhã (31/03) o Golpe de 1964, a história nos lembra que ele ocorreu em 1º de abril, conhecido mundialmente como o Dia da Mentira. Ainda bem, março, mês do Dia Internacional da Mulher (8) e do Mundial da Água (22), não merece abrigar data tão nefasta.

Água me lembra a infância na Zona da Mata Mineira, onde, apesar do abastecimento precário, era abundante. Bastava pegar uma vasilha, ir à mina mais próxima, enchê-la do tal líquido insípido, inodoro e incolor (como nos ensinaram no grupo escolar), voltar para casa, filtrá-la na talha, repassá-la para a moringa e degustá-la sempre fresca. Geladeira era artigo de luxo, privilégio de poucas famílias.

Não é saudosismo, apenas uma constatação de que não é mais assim. Já um bom tempo, a água para consumo humano é vendida. No orçamento das famílias, quase sempre o garrafão de 20 litros pode até não pesar financeiramente, mas está presente. Há a opção do purificador e do retorno ao filtro de barro ou terracota, entre outros, com moderna tecnologia e design arrojado, mas exige um certo poder aquisitivo.

Está sendo vendida, porque sua disponibilidade anda restrita. É um princípio básico da economia capitalista. Embora a terra seja composta por dois terços de água, apenas 3% de toda essa imensidão é doce e somente 0,5%, acessível e segura. Além disso, cerca de 70% da água doce disponível é utilizada na agricultura, pecuária, indústria e produção de energia, entre outras atividades. Mais recentemente, um novo tipo de consumo, tipo peso pesado, surgiu e contribui exponencialmente para uma crise hídrica mundial.

São os Data Centers, espinha dorsal da economia digital e serviços em nuvens. Responde a inteligência artificial, razão de sua existência: são cerca de 12 mil espalhados mundo afora, dos quais pouco menos de 200 no Brasil e quase a metade (mais de cinco mil) nos Estados Unidos, seguido de Alemanha, Reino Unido e China. Até aí, tudo bem, o mundo evoluiu, a vida está mais fácil… etc. e tal.

O problema, segundo a EESI (Environmental and Energy Study Institute ou Instituto de Estudos Ambientais e Energéticos, em português), está na manutenção. Os maiores podem consumir até 5 milhões de galões diários, o equivalente ao consumo de uma população variando entre 10 mil e 50 mil pessoas. Apenas os norte-americanos consomem 449 milhões de galões diários. Por lá, sua expansão tem provocado conflitos, especialmente em estados com estresse hídrico, como Arizona, Texas e Oregon, onde chegaram a consumir 29% da água da cidade de The Dalles, Oregon, em 2021. No Brasil, situação parecida se repete em São Paulo, Brasília e Nordeste. Causa: instalação de datas centers.

Tecnologias inovadoras, como resfriamento direto no chip e por imersão podem reduzir o consumo. No entanto, com a prevalência da ideologia do lucro a qualquer preço e o desprezo pela vida humana, dificilmente esta será a opção adotada.

 

*Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista em Cuiabá

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