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Mulheres no atabaque, o ritmo do Sagrado conduzido por mulheres

Fátima Lessa*

 

No terreiro, o atabaque bate forte e marca o compasso da gira. A cada toque, os pontos se levantam, os guias são chamados e o trabalho espiritual ganha ritmo.

Na Casa de Dona Ana, babalorixá de Umbanda do Centro Espírita Oxalá Laura de Vicunã, no bairro Santa Helena, quem conduz esse movimento não é um homem, como durante muito tempo foi mais comum em diversos rituais das religiões de matriz africana. É uma mulher.

No terreiro, quem comanda o atabaque é Anne Cândido. E não apenas toca: conduz o sagrado com mãos seguras e voz que atravessa a gira.

É ela quem chama os guias, sustenta os pontos cantados e organiza espiritualmente o ritual. Quando suas mãos batem no couro, o trabalho avança. Quando sua voz se levanta no canto, a corrente se fortalece.

O sagrado pulsa no compasso de uma mulher, e isso, embora pareça simples para quem observa de fora, carrega um significado profundo.

Em muitas casas tradicionais de Candomblé, o atabaque é um território masculino. Em diversas nações, a função de tocar os tambores sagrados pertence aos alabês, homens iniciados preparados para essa responsabilidade ritual.

Isso não significa ausência de poder feminino dentro dos terreiros. Pelo contrário. As mulheres sempre ocuparam posições centrais na vida religiosa: são mães de santo, ekedis, zeladoras do axé, guardiãs da memória espiritual e responsáveis por sustentar a continuidade das casas.

Na Umbanda, essa divisão não se impõe com a mesma força. Nascida do encontro de diferentes tradições espirituais e muito presente nas cidades brasileiras, a religião abriu espaço para que mulheres também assumissem os pontos cantados, a condução da gira e, em muitos terreiros, o próprio atabaque.

Mais do que um instrumento musical, o atabaque organiza o tempo da cerimônia, chama as entidades, sustenta o axé coletivo e conduz o ritmo espiritual do trabalho. Quem toca não apenas acompanha o ritual, mas ajuda a guiá-lo.

Nesse contexto, a presença de Anne Cândido no atabaque não é apenas um detalhe cotidiano da gira. Ela carrega um significado maior.

Quando uma mulher ocupa esse lugar, não está apenas executando a música ritual. Está assumindo uma função que, em muitos contextos religiosos, é tradicionalmente reservada aos homens. Está demonstrando, na prática, que o sagrado também se organiza nas mãos femininas.

E quando, além de tocar, ela sustenta os pontos com voz firme, conduzindo energeticamente o trabalho espiritual, o gesto ganha ainda mais força.

Afinal, a voz das mulheres sempre esteve presente nos terreiros.

No cuidado. Na devoção. Na transmissão dos saberes.

Na sustentação da vida espiritual das casas.

Elas são parte essencial da continuidade das tradições e da força cotidiana que mantém o axé vivo.

Observar quem ocupa o atabaque não é apenas perceber uma função musical do ritual. É também compreender quem conduz e sustenta simbolicamente o trabalho espiritual.

Ao longo da história, sua presença foi mais reconhecida nos espaços de cuidado e organização da vida religiosa do que nos lugares mais visíveis da condução ritual.

Hoje, em muitos terreiros de Umbanda e também em algumas casas de Candomblé, essas práticas podem variar de acordo com os fundamentos e as tradições de cada comunidade religiosa.

A cena vivida no terreiro de Dona Ana é um retrato dessa realidade.

Não se trata de negar fundamentos nem de desrespeitar tradições que seguem caminhos próprios dentro das religiões de matriz africana. Trata-se de reconhecer que, em muitos espaços da Umbanda, as mulheres também sustentam o ritmo do Sagrado.

Com o canto. Com o toque. Com o axé que sustenta a gira.

No atabaque que Anne Cândido toca, ecoa mais do que o som do couro. Ecoa a presença das mulheres que sempre fizeram parte da vida dos terreiros, sustentando o cuidado, a fé e a continuidade das casas. Ecoa também a força de um axé que se manifesta em muitas mãos.

O axé não pergunta quem bate no tambor.

Ele responde a quem tem força para sustentá-lo.

E naquela gira, quando o couro do atabaque soou novamente, era justamente uma mulher quem guiava o ritmo do sagrado.

 

Fátima Lessa*  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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