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Não à 6×1; sim à 5×2; quiçá 4×3

Jairo Pitolé Sant’Ana*

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Não é de se estranhar a posição contrária de boa parte do meio empresarial à redução da jornada de trabalho no Brasil, hoje estipulada pela CLT em 44 horas semanais, com direito a duas horas extras diárias, inclusive aos domingos, desde que, óbvio, pagos os adicionais legais ou compensadas com folgas. Só não dá para entender alguns dos argumentos usados na defesa deste ponto de vista. Como uma possível “preguiça macunaímica”, por exemplo, antes restrita aos povos originários, mas rapidamente estendida a todos os tupiniquins.

(Aliás, algumas décadas atrás, o cuiabano foi chamado de preguiçoso, por fechar seu comércio para a sesta; enquanto países como Itália e Espanha continuam a praticá-la e estão entre os maiores PIB do mundo).

Pois é! Tentaram requentar o tema. Na semana passada, um dirigente patronal afirmou em A Gazeta, que o “Brasil é um país preguiçoso, que trabalha cada vez menos”, como se preguiça fosse uma condição coletiva e não individual. Elogiou os EUA, onde tem familiares que “ficam felizes em trabalhar até 16 horas diária, por conta da remuneração em dólar”. Com relação a ser pago em dólar, é claro que brasileiros ficam felizes com esta condição. Senão, os que não conseguem entrar legalmente não dispenderiam tanto dinheiro com “coyotes” e não viveriam sob a tensão, o medo e o risco da deportação.

Quanto à condição de preguiçosos, deve estar mais para cansaço, especialmente para quem se desloca horas e horas até chegar ao seu local de trabalho em, com raras exceções, transporte público precário e lotado ou, como no caso cuiabano, em ruas e avenidas esburacadas ou muito, mas muito, mal remendadas. Se ser preguiçoso é querer trabalhar menos na semana para ficar próximo à família ou simplesmente curtir o ócio, o que se dirá dos holandeses, por exemplo.

Segundo recente matéria da BBC Brasil (11.03.26), por lá, a jornada de quatro dias por semana já é comum “há vários anos, inclusive em grandes empresas”. Em média, são 32,1 horas semanais, bem abaixo da média, de 36 horas, da União Europeia. Mesmo assim, seu PIB per capita, acima de US$ 73 mil, está entre os maiores do mundo. Resumindo: a produtividade não caiu. Ao contrário, aumentou.

Segundo matéria do Jornal da USP, de maio de 2023, os ingleses confirmaram a tese, por meio de uma pesquisa, feita entre junho e dezembro de 2022 pelo Instituto Autonomy, com 61 empresas de diversos setores, onde se reduziu a jornada de trabalho para quatro dias semanais. Como prova de que a produtividade não caiu, 92% das participantes decidiram manter a carga horária reduzida.

Quem sabe, talvez, estivessem apenas seguindo orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e OIT (Organização Internacional do Trabalho). Pouco tempos antes, divulgaram estudo revelando que, entre 2000 e 2016, o número de mortes por doenças cardíacas isquêmicas atribuídas a longas jornadas de trabalho aumentou 42%, enquanto as mortes por derrame cerebral (AVC), 19%.

Resumo da ópera: Com saúde, vive-se mais e trabalha-se melhor.

*Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista em Cuiabá

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