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Os ilusionistas

Jairo Pitolé Sant’Ana*

Reprodução/Instagram

Parece que a caminhada “pela liberdade e justiça”, entre Paracatu, na divisa de Minas com Goiás, e Brasília, liderada pelo deputado mineiro Nikolas Ferreira, só atraiu mesmo quem estava atrás de holofotes, especialmente a fina flor do bolsonarismo, incluindo um dos herdeiros. Além, claro, de tentar criar um “clima”. Houve até uma tentativa de mostrar uma multidão de adeptos, mas o Estadão logo estampou: “Falso”. A foto foi gerada por inteligência artificial: “parte do rosto dos manifestantes aparece distorcida e os cartazes que eles seguram têm frases em inglês e sequência de letras aleatórias sem sentido”.

Também foi fake o próprio nome dado ao protesto, dito ser contra as prisões de 8 de janeiro de 2023, pela defesa de Jair Bolsonaro e tentar mobilizar os conservadores. À pergunta “se na caminhada o deputado se utilizava de veículos”, a resposta foi clara: “Sim. (…) tem se utilizado de veículos, incluindo carros e até helicóptero (…), embora o evento seja divulgado como um trajeto feito a pé”. No entanto, nas redes sociais, sob o título “Após mais de 100 km a pé, Nikolas Ferreira relata dores…” e reclama: “já estou com o pé deformado”. Não está na hora de fazer uma acareação entre ambos (o deputado e a IA)? As “narrativas” não batem.

Enquanto tentam ditar a pauta, uma outra incomoda boa parte dos membros da caravana nicolesca: possíveis crimes vindo à tona. Seja pela CPMI do INSS (como a lista divulgada por Damares, de pastores investigados por fraudes em descontos de benefícios de aposentados); seja pela ação ministro Flávio Dino, do STF, sobre desvios de emendas do orçamento secreto (há um bom número de parlamentares sendo investigados). Ou, ainda, as operações da Polícia Federal contra a lavagem de dinheiro do crime organizadíssimo e a recente liquidação do Banco Master. Poucos contam com guarda-chuvas para se proteger de tantos respingos. Ah! Não esquecendo dos quase 30 prefeitos presos, em poucos anos, apenas Santa Catarina, onde recentemente se votou contra o fim de cotas raciais em suas universidades estaduais, e os R$ 470 mil de Sóstenes Cavalcanti, cujas explicações para sua origem ainda não convenceram.

Voltando à lista dos pastores divulgadas pela senadora Damares, um deles bem próximo do deputado mineiro, por sinal criado neste meio e membro de uma comunidade evangélica. Pensei com meus botões: os evangélicos são cristãos e os cristãos são contra a mentira e o roubo. A mentira é considerada “pecado e contrária à natureza de Deus”, enquanto “o ensinamento bíblico condena o furto de forma contundente, baseando-se em princípios de justiça, caridade e respeito ao próximo”. Portanto, quem participa de fraudes e quem espalha fake News não podem ser considerados cristãos. Mas, apesar das evidências, ainda há quem acredite neles. Que sejam cada vez menos.

 

*Jairo Pitolé Sant’Ana, é jornalista em Cuiabá

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Publicado em A Gazeta, de Cuiabá, nesta segunda-feira, 26.01.2026

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