COLUNA

Francisca Medeiros

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O prato do mundo está ficando igual

Foto: IA

O que vai ao prato de uma pessoa que mora em Nova Deli, Tóquio ou Sinop é cada vez mais parecido, não na forma de preparo, mas na origem. É enorme a chance de que trigo, milho, arroz, batata, soja ou cana-de-açúcar estejam entre os ingredientes. Porque é deste cardápio restrito que vêm hoje 75% das calorias consumidas no mundo e essa concentração, chamada de monotonia alimentar, é resultado do modelo de produção agropecuária que privilegia a monocultura e a criação de animais de poucas raças e com baixa variação genética. E toda essa padronização, essa homogeneidade, tem ligação com as mudanças climáticas e traz consequências para o meio ambiente e para a saúde humana.

Um dos estudiosos do tema é o filósofo e sociólogo brasileiro Ricardo Abramovay, que descreve esse modelo agroalimentar de ‘tríplice monotonia’, caracterizada por pouca diversidade das culturas agrícolas; concentração da produção animal e o uso intensivo de antibióticos; e o aumento do consumo de ultraprocessados. Para ele, um pacote insustentável para o meio ambiente e para a saúde coletiva.

Pela urgência do enfrentamento da insegurança alimentar no mundo, o conceito de tríplice monotonia saiu da academia brasileira e entrou para o fórum que decide os rumos dos detentores da maior fatia do PIB mundial. Na última reunião do G20, em novembro passado, na África do Sul, o documento final incluiu a ideia de que é preciso combater esse quadro e diminuir, por exemplo, o uso de antibióticos nas criações de animais.

Pelo poder do G20, que é o maior fórum de cooperação econômica mundial – ele junta as 19 maiores economias do mundo, União Europeia e União Africana -, a tendência é que o debate ganhe amplitude e força em todo o mundo.

Os números que mostram o afunilamento das opções de cultivo de alimentos são impressionantes: dos cerca de 7 mil produtos comestíveis do mundo apenas 400 são cultiváveis. Mas 2/3 do que é consumido vêm apenas dos seis produtos citados no início do texto.

A edição do último dia 20 de janeiro do Jornal da USP, o professor Abramovay explicou as principais recomendações do documento final do G20. Uma delas é a necessidade de redução do uso de antibióticos nas criações animais, principalmente de aves e de suínos. “Elas são altamente dependentes de antibióticos, e esse é um dos vetores importantes de um problema seríssimo contemplado pela Organização Mundial da Saúde, que é a resistência aos antibióticos com as superbactérias”.

Outro ponto de destaque do G20 foi a menção à tríplice monotonia e os riscos ambientais inerentes, como explicou Ricardo Abramovay. “Essas regiões são atingidas por eventos climáticos extremos e, como concentram muita produção, nelas se concentra também o uso de produtos químicos, fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, que é profundamente prejudicial para a saúde humana e para os serviços ecossistêmicos”.

Abramovay, que é pesquisador da Cátedra Josué de Castro, da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o também sociólogo Arilson Favareto, organizou um livro com artigos que revelam não só a falta de sustentabilidade do modelo vigente, mas também traz algumas alternativas a ele; e muitas delas, inclusive, já em curso.

Lançada há três meses, a obra “Caminhos para a transição do sistema agroalimentar: desafios para o Brasil” (Editora Senac) traz exemplos promissores de agricultura regenerativa, do maior uso de bioinsumos e de diversificação das culturas agrícolas e da pecuária.

A defesa enfática dos sistemas agrícolas com paisagens heterogêneas e com maior variedade de culturas é pelo poder de melhoria dos rendimentos, com a ampliação da polinização, aumento do carbono no solo (sequestro de carbono) e aumento da resiliência às variações climáticas.

São soluções que podem ajudar outras ações práticas e inspirar políticas públicas. Para o consumidor, a recomendação é que valorizem mais os alimentos frescos e minimamente processados.

Não é, certamente, tarefa fácil ampliar a oferta de alimentos além do cardápio usual e bem monótono. E, principalmente, que esses alimentos sejam produzidos de forma ambientalmente adequada e que incluam produtores de todos os portes e origens.

Depende de muita coisa – de políticas públicas, da distribuição e acesso mais eficientes e inclusivos, tecnologias adaptadas, mudanças culturais. O professor Abramovay defende um cronograma de eliminação de tecnologias que, na avaliação dele, foram importantes no passado, mas que estão superadas porque não entregam alimento “saudável e sustentável do ponto de vista dos serviços ecossistêmicos.”

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem feito sua parte como parceira do grupo de instituições que atua no combate à fome, segurança alimentar e sustentabilidade ambiental. Muitas pesquisas buscam aumentar a diversidade das espécies cultivadas, potencializando a adaptação dos sistemas às mudanças do clima e trazendo opções de renda aos produtores.

São mudanças que devem passar pelos gabinetes de poder, pelo campo, laboratórios e também pelas cozinhas, com a redescoberta do valor dos alimentos e das culinárias regionais e locais.

E que em todas as pontas, seja nas mesas de decisões globais, nas instituições de pesquisa, nas fazendas, nos comércios e casas, que haja um olhar mais acolhedor e sábio para a diversidade, que alinhe melhor o sistema agroalimentar, a saúde e o meio ambiente. E que cada prato mostre a biodiversidade de cada lugar e que não haja qualquer traço de monotonia na hora da refeição.

 

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