A cidade verde que virou ilha de calor

Por Fátima Lessa
Cuiabá completa 307 anos marcada por contrastes. Apesar do título de “cidade verde”, cunhado há décadas pela presença de mangueiras nas ruas e às margens dos córregos, que perfumavam a cidade na época de manga, e pelos tradicionais quintais cuiabanos, a capital assiste ao avanço silencioso da derrubada de árvores, à substituição do verde por concreto, asfalto e impermeabilização do solo e ao desaparecimento desses espaços domésticos.
Entre 2024 e 2025, a capital foi a terceira que mais cresceu no Brasil, segundo estimativas do IBGE. A população passou de 682.932 para 691.875 habitantes, um aumento de 8.943 pessoas em apenas um ano, crescimento de aproximadamente 1,3%. O crescimento urbano ocorre em meio ao aumento das temperaturas. Nos últimos anos, a capital tem feito valer o apelido de “Cuiabrasa”: em setembro de 2025, registrou 41,4 ºC e foi a cidade mais quente do país, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Cortada por córregos, hoje muitos cobertos por asfalto ou degradados, a cidade enfrenta temperaturas elevadas ao mesmo tempo em que passa por um processo crescente de verticalização. Para entender os impactos desse cenário, arquitetos ouvidos pela reportagem avaliam os caminhos e desafios do planejamento urbano local.
Dentro desse contexto, a arquiteta Luciana Mello avalia que a verticalização pode ser positiva, desde que acompanhada de estratégias como espaçamento entre edifícios, ventilação urbana e integração com áreas verdes. “A verticalização otimiza o uso do solo e pode contribuir para a preservação ambiental, mas precisa ser pensada de forma ampla”, afirma. Segundo Luciana, o modelo adotado atualmente na cidade segue, em grande parte, interesses do mercado imobiliário, sem considerar o conjunto urbano, o que contribui para a formação de ilhas de calor, excesso de concreto e redução de espaços públicos.
O arquiteto Luiz de Arruda corrobora com essa avaliação e afirma que a verticalização da forma como ocorre “atende mais ao mercado do que a uma necessidade urbana”. A necessidade urbana, segundo ele, é que o centro seja ocupado, os locais sejam todos ocupados de uma forma mista entre todas as horas do dia. “Cidade que não pensa na questão urbana, morre”, afirma ele.
Outra questão apontada por Luciana é a falta de planejamento, que compromete a ventilação natural e, como consequência, aumenta a dependência de sistemas artificiais de climatização, elevando o consumo de energia. “Não sou contra a verticalização, mas ela vem sendo mal aplicada”, afirma.
Sobre os condomínios fechados, a arquiteta avalia que reforçam a segregação e fragmentam a cidade, ao criar espaços isolados e pouco integrados à dinâmica urbana.
Arruda pondera que esses empreendimentos funcionam como uma resposta à falta de qualidade urbana. Segundo ele, é um urbanismo que deveria estar em toda cidade. “São espaços organizados e arborizados dentro de uma cidade que não oferece isso. Mas a vida acontece fora deles”, afirma, acrescentando que na verdade “é uma bolha de conforto dentro de uma cidade que não funciona bem, é uma ilusão porque a grande vida está lá fora”.
Outro ponto crítico é o dos córregos, que deixaram de cumprir função estruturante e passaram a ser tratados como áreas secundárias. Para Luciana, houve falhas no planejamento e na preservação desses recursos, mas há potencial de revitalização, com a criação de parques lineares e integração ao desenho urbano. Arruda reforça que a cidade precisa ser pensada de forma integrada. “Quando o nível de urbanismo cai, a qualidade de vida acompanha”, diz o especialista em arquitetura sustentável.
Para ambos, o desafio de Cuiabá passa por conciliar crescimento populacional, clima e qualidade de vida, com mais arborização, valorização dos recursos naturais e projetos que dialoguem com as características locais. O risco é que a expansão contínua agrave ainda mais os extremos de calor já sentidos pela população.
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