COLUNA

Francisca Medeiros

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Presença de cervo asiático no Pantanal é risco para meio ambiente

Foto: Charles J. Sharp/Wikipédia.

 

O chital, uma espécie exótica de cervo, ameaça o equilíbrio do Pantanal Mato-grossense. Esse invasor que é nativo da Ásia foi encontrado pela primeira vez no bioma no início deste ano em uma fazenda no município de Corumbá, em Mato Grosso do Sul. Funcionários conseguiram filmar o animal que havia atacado bovinos e acabou perseguido por cachorros. Chamou a atenção o comportamento agressivo do bicho, o que não é comum nos cervos nativos brasileiros. Pesquisadores temem que o aumento da população do chital traga riscos à biodiversidade.

O chital foi introduzido na América do Sul no início do século XX para fins da caça esportiva. Ele chegou no Uruguai, avançou para a Argentina e o Paraguai e depois entrou no Brasil. O primeiro registro, de 2009, foi no Rio Grande do Sul.  Desde então, as ocorrências foram, sucessivamente, em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e, agora, em Mato Grosso do Sul. É um avanço de cerca de 150 quilômetros por ano.

A espécie mostra grande capacidade de adaptação e de dispersão e pode ser muito agressiva. Há quatro anos um desses animais atacou e matou um militar do regimento da escolta do presidente paraguaio dentro da residência oficial.  O cervo, que havia sido doado pelo Sri Lanka dois anos antes, vivia solto como animal ornamental.

Esse forasteiro de grande porte é robusto e vigoroso, os machos podem passar de 100 quilos. Na briga por alimentos, cuja base é a mesma dos parentes nativos, poderá haver conflitos diretos, além do risco de transmissão de doenças. Os problemas poderão ficar mais agudos à medida que aumentarem as populações do invasor, cenário em que ficará, obviamente, mais difícil o controle.

O Pantanal abriga diferentes espécies de cervídeos nativos, como o veado-campeiro, veado-catingueiro, veado-mateiro e o cervo-do-pantanal, espécie que está na lista dos ameaçados de extinção e, com a presença do chital, mais impactos ecológicos virão.

O Brasil tem oito espécies de cervos, também conhecidos como veados ou catingueiros, de portes variados que vão de 45 centímetros a 130 centímetros de altura; o cervo-do-pantanal é o maior deles.

As principais ameaças aos veados brasileiros – e às demais espécies animais – são a destruição e divisão de seus habitats, profundamente alterados com a expansão da atividade agropecuária, o crescimento das cidades com a consequente divisão dos territórios cortados por rodovias onde os atropelamentos são um risco constante. Eles ainda são vítimas da caça ilegal, espetáculo grotesco que inclui até a venda dos chifres como troféus. E some-se a tudo isso o perigo trazido pela presença do chital.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) coordenou, entre 2010 e 2015, o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Cervídeos Brasileiros (PAN Cervídeos). O plano foi encerrado com apenas 18% das ações concluídas e as espécies-alvo de veados foram incluídas no PAN Ungulados, que incluiu ainda a anta e o queixada.

Neste vácuo de ações mais efetivas de proteção, são iminentes os riscos para os cervos brasileiros, mais ainda diante da possibilidade de aumento descontrolado da população de chital, que não possui predadores naturais no país. E, apesar da introdução no Brasil já passar de 16 anos, faltam ações efetivas focadas no controle da espécie, com base em estudos científicos.

Especialistas temem que o cenário que se desenha pode ser parecido com o da invasão do javali, que acabou se cruzando com linhagens domésticas de porcos, surgindo os javaporcos, que atacam com voracidade plantações Brasil afora.

A política de controle do javali ficou concentrada na ação dos Caçadores, Atiradores e Colecionadores de armas de fogo (CACs) “e tem sido absolutamente ineficaz. Para estabilizar seu crescimento são necessárias remoções acima de 60% dos indivíduos por ano”, analisam os pesquisadores Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa Pantanal, e Liliane Tiepolo, da Universidade Federal do Paraná, em uma coluna recente assinada em conjunto no portal O Eco.

Os pesquisadores alertam para uma série de dificuldades, como a governança insuficiente do Brasil para o controle de espécies invasoras em um território de dimensão continental. No caso do cervo invasor, analisam que “é impossível predizer a magnitude dos impactos, caso ocorram. Nada se conhece sobre este assunto”, ressaltam.

O alerta inclui também o risco da introdução de outras espécies exóticas de cervos de forma irresponsável por pessoas que compram animais livremente pela internet, quase sempre para fins ornamentais e a preços superiores a R$ 10 mil por cabeça.

Na coluna, os pesquisadores defendem a adoção de medidas de caráter duradouro, como a criação de um serviço público de vida selvagem e a formação de profissionais capacitados para a gestão e manejo de populações de animais de vida livre. E reforçam que “este registro no Pantanal serve como um alerta sobre a necessidade de uma política clara, eficaz e efetiva, para evitar invasões biológicas, um dos maiores desafios à conservação da biodiversidade”.

 

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