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Samu e Bombeiros: integração não pode significar extinção

Luiz Fernando Rogério *

Foto: PGE-MT

Em 2012, escrevi um artigo onde denunciei o “sequestro” de ambulâncias e a desarticulação do projeto original do Samu na Baixada Cuiabana. Naquela época, o serviço sofria com a negligência política e a falta de bases físicas. Hoje, em 2026, enfrentamos um dilema diferente, mas igualmente perigoso: sob o pretexto de eficiência e integração, o governo de Mato Grosso sinaliza uma absorção total do Samu pelo Corpo de Bombeiros.

Em meu artigo anterior, defendi a inclusão dos Bombeiros nas equipes do Samu. Minha tese era simples: o militar possui a disciplina e a perícia técnica para o salvamento e a proteção da cena. No entanto, o Samu traz algo que o militarismo, por sua natureza, não foca: o olhar clínico o intra-hospitalar, a municipalização dos serviços e a regulação médica imediata.

O Samu brasileiro foi espelhado no modelo francês (Service d’Aide Médicale Urgente), onde o hospital vai até o paciente. É uma estrutura civil, médica e humanizada, desenhada para tratar o infarto, o AVC e o choque séptico ainda no asfalto.

Transferir essa gestão inteiramente para uma força militarizada pode burocratizar o atendimento médico e desviar o foco do cuidado clínico para a logística de resgate.

O fantasma da má gestão em Mato Grosso

A história nos ensina. Cuiabá, por anos, omitiu-se de gerir o Samu, empurrando a responsabilidade para o Estado. Isso criou o cenário de vulnerabilidade que o governo atual tenta resolver com a “solução rápida” da militarização total com quer fazer na educação. Mas o que a sociedade mato-grossense precisa não é de uma farda substituindo um jaleco, e sim de ambos trabalhando no mesmo raio de frequência.

O governo alega que o Samu não será “fechado”, mas sim “integrado”. Contudo, se a estrutura de regulação médica for subordinada exclusivamente à hierarquia militar, corremos o risco de perder o que o Ministério da Saúde define como o pilar do serviço: a autonomia do médico regulador para decidir o destino do paciente com base no quadro clínico, e não apenas na disponibilidade de leitos ou logística de frota.

O que defendemos para 2026?

Não queremos o sucateamento que denunciei no governo Maggi, nem a extinção velada sob o governo atual. Queremos:

  1. A manutenção da identidade do Samu 192 como serviço de saúde pública civil.
  2. Operação Conjunta: Bombeiros no salvamento (193) e Samu no suporte médico (192), compartilhando tecnologias de localização e bases físicas (o que reduz custos sem destruir as especialidades).
  3. Gestão Compartilhada: Que a expertise dos Bombeiros na logística e disciplina ajude na manutenção das viaturas — ponto crítico que citei em 2012 — mas que a decisão médica permaneça técnica e civil.

O Samu é um patrimônio do SUS. A eficiência da Baixada Cuiabana não pode ser conquistada às custas da desidratação de um modelo que salva vidas há décadas. Integrar para fortalecer? Sim. Militarizar para extinguir? Jamais.

 

*Luiz Fernando Rogério é especialista em Gestão Sistemas e Serviços de Saúde.

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