COLUNA

Adriana Mendes

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Operação da PF, disputa por terras e o deputado debochado

 

O celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em 2023, mais uma vez embasou uma operação da Polícia Federal, mesmo três anos após a sua morte. O fio condutor é a disputa por terras.

O caso está relacionado à disputa de uma área ocupada por cerca de 200 famílias representadas pela Associação dos Trabalhadores Rurais da Gleba Santo Expedito, no município de Cláudia, localizado a 570 km de Cuiabá.

A suspeita é que houve pagamento de R$ 1 milhão para garantir uma decisão favorável à uma madeireira em um processo de reintegração de posse contra as famílias assentadas na área. O autor da ação contra a associação de trabalhadores é o vereador e ex-prefeito de Claudia, Vilmar Giannini (MDB), que também foi alvo da operação, Na investigação foram identificadas transferências suspeitas à empresa V. C. I. Ltda., supostamente ligada a ele.

Originalmente, a Justiça de primeiro grau havia decidido em favor dos trabalhadores rurais, mantendo-os na posse da terra. No entanto, após recursos, o caso foi redistribuído no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) para o desembargador Dirceu dos Santos, que está afastado do cargo. A investigação aponta que essa redistribuição ignorou regras de competência interna, uma vez que outros recursos sobre o mesmo conflito já eram julgados por câmaras distintas.

É nessa articulação que foi identificada a atuação do deputado estadual Faissal Calil (PL), assessor do desembargador entre 2017 e 2018. Ele se habilitou como advogado no processo da Gleba e é suspeito de ter atuado como “articulador estratégico” para direcionar o processo ao gabinete do magistrado investigado. Faissal tem ligação política com o ex-prefeito de Cláudia.

A análise de mensagens no celular de Zampieri revelou diálogos com o deputado dois dias antes do julgamento, nos quais o resultado favorável à empresa já era tratado como certo, o que reforça a hipótese de um acerto prévio da decisão judicial.

A Gleba Santo Expedito é, portanto, o “eixo fático” que permitiu à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal desvelar o que a decisão judicial descreve como um esquema de comercialização de decisões e lavagem de dinheiro envolvendo figuras do alto escalão do Judiciário e do Legislativo mato-grossense.

Em uma das conversas, Zampieri solicita ao suposto operador financeiro, o empresário Luciano Cândido Amaral identificado como “irmão gêmeo DD” – que “organizasse” um efeito suspensivo, o qual foi deferido logo no dia seguinte.

O conteúdo do celular de Zampieri é tratado na decisão como peça-chave para reconstruir a dinâmica criminosa e identificar a rede de influência no TJMT.

No final de abril, a ministra Daniela Teixeira, do STJ, concedeu liminar para suspender todas as ordens de reintegração de posse na Gleba Santo Expedito. A magistrada fundamentou sua decisão na proteção de populações vulneráveis e no risco de dano grave às dezenas de famílias que ocupam a área há décadas.

Em resumo: enquanto a ministra Daniela Teixeira protege a posse das famílias no campo social e da disputa judicial pela área, o ministro Noronha investiga a suposta corrupção que teria ocorrido nos bastidores judiciais do mesmo caso.

A citação do nome de Faissal ocorre em período de pré-campanha à reeleição, desta vez pelo PL. O partido já saiu em defesa do novo integrante, figura conhecida da direita cuiabana. O que não caiu bem, porém, foi o deboche do parlamentar após a operação: ele saiu para pedalar e postou nas redes sociais um vídeo rindo, comentando que “duvidaram” que ele participaria do passeio que costuma frequentar às segundas-feiras. “Que horas são no meu Rolex?”, disse o parlamentar que foi um dos alvos da operação.

A operação segue em andamento. O deputado Faissal nega envolvimento, afirma estar à disposição das autoridades e diz que o caso não tem relação com seu mandato. Ainda assim, a reação pública após a ação da PF, com vídeo nas redes sociais, passeio de bicicleta e menção ao próprio Rolex, adicionou desgaste político a um caso que já envolve suspeitas graves no Judiciário mato-grossense. Três anos após a morte de Zampieri, seu celular continua falando.

 

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