Exclusivo: perito revela “caixa-preta” e indícios de desvio milionário em VG

Uma auditoria técnica no Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG) identificou uma diferença milionária entre o faturamento registrado no sistema da autarquia e os valores apontados por uma empresa responsável pelas leituras. Em entrevista exclusiva à coluna, o perito Luiz Felipe Pereira revelou que, ao longo de um período de oito anos, o sistema indicava um faturamento mensal de R$ 8 milhões, enquanto o relatório da empresa de leitura apontava aproximadamente R$ 34 milhões, uma diferença de R$ 26 milhões por mês.
A divergência é um dos indícios que o levaram a suspeitar da existência de um banco de dados paralelo. O perito afirma que encontrou diferenças entre backups, falhas de rastreabilidade e registros atípicos de cortes e religações de água.
O técnico atuou no setor de tecnologia do DAE entre agosto de 2025 e março de 2026. Integrante da Associação Nacional dos Peritos em Computação Forense (Apecof), ele informou ter sido contratado para realizar uma perícia técnica e estruturar o departamento de tecnologia da autarquia.
Segundo Luiz Felipe, o sistema anterior utilizado pelo DAE (Gsan)- da empresa Logpro) não permitia auditoria adequada. Ele revelou que, durante a análise dos dados, foram encontrados indícios de inserção e possível manipulação de informações financeiras.
“Eu não consegui concluir se houve desvio de dinheiro, porque dentro do backup havia um apontamento para um segundo banco de dados. Só que, quando solicitamos acesso, a empresa negou a existência desse banco”, afirmou.
Pereira relatou ainda que o faturamento bruto da autarquia, entre 2017 e 2025, apresentava pouca variação, apesar do crescimento populacional e urbano de Várzea Grande no período.
“Parecia que o DAE tinha parado no tempo. Enquanto isso, bairros inteiros cresceram, como o Chapéu do Sol, que em 2018 praticamente não existia”.
A principal suspeita é de que as informações de leitura e faturamento passavam por uma base intermediária antes de serem enviadas ao banco de dados acessado oficialmente pelo departamento. “A minha suposição técnica é que a leitura da fatura ia para esse banco oculto, era tratada lá e só depois enviada para o banco ao qual o DAE tinha acesso”, afirmou.
Ainda conforme o relato, o sistema permitia inconsistências cadastrais, como registros com CPFs inválidos, duplicidade de nomes e matrículas sem bloqueio automático. O ex-funcionário também menciona relatos internos sobre um suposto “Grupo 99”, que, segundo ele, seria um cadastro usado para possíveis desvios. O perito ressalta, porém, que não conseguiu confirmar essa informação, porque não teve acesso pleno ao banco de dados em produção.
A transição para o novo sistema, apresentado pela atual gestão como “totalmente auditável e rastreável”, também enfrentou problemas com as deficiências técnicas.
O perito afirma ainda ter sofrido ameaças dentro da autarquia. Segundo ele, em uma ocasião, chegou a ser chamado por um assessor administrativo-financeiro, que estaria nervoso e teria cobrado a entrega de uma suposta lista de investigados.
“Eu disse que não existia lista de investigados. Eu estava apenas fazendo o serviço para o qual fui contratado”, relatou.
Com base em depoimentos do perito, documentos, áudios e também relatos de outros ex-funcionários foi aberta uma nova frente de investigação sobre a gestão do DAE. Em um dos áudios entregues, o então procurador-geral do DAE diz que a prefeita “está sabendo de tudo”. Todo o material ainda precisa ser periciado.
O desembargador Orlando de Almeida Perri, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, autorizou na última quarta-feira (29) a instauração de inquérito policial contra a prefeita de Várzea Grande, Flávia Petersen Moretti (PL), para apurar supostos crimes contra a Administração Pública.
Procurada pela coluna, a prefeitura informou, por meio da assessoria, que acompanha com serenidade a autorização para abertura de inquérito. Segundo diz a nota, “a medida possui caráter exclusivamente investigativo e não representa qualquer conclusão ou juízo de culpa”.
O comunicado destaca ainda que a prefeitura permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e reforça o compromisso com a legalidade, a transparência e o devido processo legal.
Histórico de embates
A crise no abastecimento de água foi um dos principais temas das eleições municipais de 2024 em Várzea Grande. A administração do DAE se tornou ponto de tensão política entre a prefeita Flávia Moretti e o ex-vice-prefeito Tião da Zaeli, que renunciou ao cargo.
O atual diretor-presidente do DAE é o vereador licenciado Rogério de França Martins – Rogerinho da Dakar, nomeado em março de 2026. A troca ocorreu dias após a prefeita reclamar que não tinha autonomia no comando do órgão. Ele assumiu o lugar do coronel Zilmar da Silva Dias, que estava no cargo desde abril de 2025, indicado pelo então vice-prefeito.
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