O que a Terra Preta de Índio pode ensinar
Os povos originários são essenciais para a proteção da biodiversidade e dos territórios. Diferentemente das práticas agrícolas tradicionais que exaurem o solo, o cultivo indígena consegue até adicionar fertilidade com o uso de elementos naturais. É o caso das Terras Pretas de Índio (TPIs) que cobrem cerca de 3% da bacia amazônica e que estão entre os solos mais férteis do mundo. E detalhe: essa fertilidade foi construída ao longo de milênios e resulta da intenção de melhorar as condições para a produção de alimentos.
Mais que uma curiosidade científica, as TPIs são uma herança de grande valor que podem inspirar estudos de práticas de sustentabilidade para manejar melhor os nutrientes e o carbono no solo. Mas, infelizmente, antes mesmo de serem totalmente decifradas pela ciência, elas sofrem com várias ameaças – o desmatamento, a especulação imobiliária e a mineração.
Há datações arqueológicas que atestam que a formação e a ocupação das áreas de TPI ocorreram entre 500 e 2500 anos A.P. (Antes do Presente, na escala usada pela arqueologia para datar eventos muito antigos e que tem como ponto de referência o ano de 1950 d.C.). Essas terras são conhecidas há 120 anos, mas as pesquisas evoluíram a partir dos anos 1980, com as evidências de que são muitíssimo mais férteis que a maioria dos solos amazônicos, que, em geral, são quimicamente pobres e fisicamente desestruturados.
Vale registrar que há pesquisadores que acreditam que essas manchas de solos são de ocorrência natural. Mas é hegemônica a visão da ciência do solo e da antropologia que a ‘criação’ das TPIs resulta da ação de mãos e do conhecimento de povos ancestrais pré-colombianos.
Foi a manipulação dos resíduos orgânicos com uso controlado do fogo que enriqueceu as terras pretas na Amazônia ao longo dos últimos 5 mil anos. Elas resultam da deposição de restos vegetais (sobras de alimentos, cascas, folhas de palmeiras usadas na cobertura das habitações), resíduos animais (pele de animais, sangue, ossos, espinhas de peixes, carapaças de quelônios), além de excrementos humanos.
E o fogo era usado para a carbonização lenta de matéria orgânica (madeira), em condições de pouco oxigênio, o que transformava os resíduos em carvão vegetal estável, conhecido como biochar. Os restos de comida, as cinzas de fogueiras e os excrementos, misturados ao carvão e resíduos cerâmicos resultavam, depois de longo tempo, no solo escuro, denso e rico em nutrientes.
A fertilidade em algumas TPIs chega a ser cem vezes superior aos solos adjacentes, com destaque para os teores de fósforo, cálcio, zinco e manganês, além dos elevados estoques de carbono orgânico. Para os pesquisadores, os artefatos cerâmicos pré-colombianos encontrados selam a evidência da sua origem antrópica.
Muitas populações indígenas, principalmente no Alto Xingu, mantêm viva a técnica de ‘criar’ terra preta e de cultivá-la, usufruindo da alta fertilidade que se estende por muitos anos e com boas produtividades. A prática se estende também para ribeirinhos e não indígenas em pequenos cultivos para subsistência de mandioca, abóbora, milho, feijão, melancia, mamão e hortaliças.
O povo Kuikuro, no Parque Indígena do Xingu, é objeto de uma ampla pesquisa sobre a prática da TIP, que envolve cientistas do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), da USP, da Embrapa Solos e é assinada também por sete representantes da população indígena do Xingu, entre eles Yamalui Kuikuro, que também é escritor.
Yamalui é uma liderança xinguana que, assim como luta para manter a ligação imemorial com a terra, cuida de resgatar a história dos ancestrais. No ano passado, lançou a biografia do avô, Nahu Kuikuro, o primeiro a falar português no Xingu e peça-chave na demarcação da terra em 1961. A biografia “Dono das palavras: a história do meu avô” venceu o Prêmio da Biblioteca Nacional de 2025 na categoria Histórias de Tradição Oral – Prêmio Akuli.
Entre os Kaiapós, em Mato Grosso e no sul do Pará, também são conhecidas diversas práticas de uso do fogo para o manejo de resíduos para a produção agrícola, além de técnicas como compostagem e uso de resíduos de troncos apodrecidos da mata – o paú ou paú-da-mata – que, misturados a folhas secas e húmus, são usados nos roçados.
Apesar do nome, nem todas as Terras Pretas de Índio estão dentro de territórios indígenas demarcados e homologadas, onde, naturalmente estariam melhor protegidas. Um estudo do MapBiomas mostrou que o desmatamento nas Terras Indígenas (TIs), entre 1985 e 2023, foi de apenas 1%, enquanto nas áreas privadas a perda de vegetação nativa foi de 28%.
Por serem muito mais férteis que o entorno, as TPIs são cobiçadas por diferentes grupos. Antes mesmo de serem estudadas em profundidade pela ciência, elas estão sob a pressão de várias ameaças, como o desmatamento, a mineração e a agricultura comercial e seu uso intensivo de agroquímicos.
Está em andamento uma ampla pesquisa liderada pela Embrapa Amazônia Ocidental, com participação de várias outras unidades da Embrapa e de universidades brasileiras, além da Universidade de Wageningen, na Holanda.
O que os pesquisadores acreditam é que, ao fim do trabalho, esse modelo indígena inspire práticas de uma agricultura mais sustentável e resiliente. E que os povos indígenas sejam reconhecidos, com a bênção de seus ancestrais, como parte da solução para os problemas ambientais e a crise climática que nos afeta a todos.
*Os textos das colunas e dos artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do eh fonte.
**A coluna do eh fonte pode ser republicada, desde seja mantida a integridade do texto, citada a autoria ( nome da colunista/ eh fonte) e incluído o link para o material original da página.
Compartilhe
Assine o eh fonte
Tudo o que é essencial para estar bem-informado, de forma objetiva, concisa e confiável.
Comece agora mesmo sua assinatura básica e gratuita:


