Ninguém trabalha. Só colabora.
Fátima Lessa*
Se há uma palavra que me incomoda há tempos, essa palavra é colaborador.
Ela aparece em e-mails corporativos, comunicados internos, discursos empresariais. Sempre no lugar de outra, mais direta, mais antiga e, ao que parece, mais incômoda: trabalhador.
Outro dia, no mercadinho do meu bairro, logo cedo, quando fui comprar pão, ela apareceu de novo.
A voz no alto-falante interrompeu o barulho dos carrinhos e das conversas ao anunciar promoções. No final, o aviso de sempre: “Em caso de dúvida, procure um de nossos colaboradores.”
Colaboradores. Ouvi uma vez. Duas. Três.
Você pode achar que é detalhe. Não é.
Palavras não são neutras. E, quando mudam, raramente é por acaso.
O sociólogo Pierre Bourdieu lembrava que nomear nunca é um ato inocente. As palavras carregam visões de mundo e ajudam a legitimar determinadas formas de organização da sociedade.
A troca de “trabalhador” por “colaborador” não é apenas uma escolha estética ou moderna. É também uma operação de linguagem. Uma forma de suavizar relações que, na prática, continuam marcadas por hierarquia, subordinação e conflito.
“Colaborador” sugere parceria. Horizontalidade. Um objetivo comum.
“Trabalhador” carrega outra coisa: história, classe, disputa. Remete ao trabalho como condição social, aos direitos conquistados, às lutas coletivas, às diferenças entre quem vende sua força de trabalho e quem a contrata.
E é justamente essa dimensão que desaparece.
Não por acaso, o termo ganha força ao mesmo tempo em que a ideia de classe trabalhadora perde espaço como sujeito político no discurso público. O que antes era conflito passa a ser apresentado como cooperação. O que era desigualdade transforma-se em “clima organizacional”.
Não é um movimento isolado. Karl Polanyi mostrou que o mercado não se sustenta apenas por regras econômicas, mas também por construções sociais que tornam suas relações aparentemente naturais. A linguagem é parte dessa construção.
Ao chamar trabalhadores de colaboradores, não se descreve apenas uma realidade; ajuda-se a reorganizar a maneira como ela é percebida.
No limite, trata-se de uma disputa simbólica. Quem define as palavras influencia o próprio campo do debate.
O efeito é sutil.
Aos poucos, consolida-se a impressão de que não há lados, interesses divergentes ou conflitos. Há apenas uma engrenagem na qual todos colaboram.
Nesse cenário, o trabalhador deixa de ser sujeito de direitos e passa a integrar uma narrativa de pertencimento. Integrado, comprometido, quase grato por estar ali.
E o mais eficiente dessa operação talvez seja justamente isso: ela não se impõe. Infiltra-se.
Primeiro, transforma o ambiente de trabalho em uma “família”. Depois, o empregado passa a ser “colaborador”. Em seguida, as diferenças se diluem, as tensões se suavizam e a própria relação de trabalho parece menos desigual.
Até que, um dia, tudo isso soa perfeitamente natural.
No fim, a palavra cumpre seu papel.
Não elimina o conflito. Apenas o esconde.
Talvez seja esse o aspecto mais inquietante: não se muda o mundo do trabalho; muda-se a forma de narrá-lo.
Porque, quando o trabalhador desaparece, ainda que apenas do vocabulário, o que desaparece com ele não é só uma palavra. Desaparece também uma maneira de compreender sua posição na sociedade e a possibilidade de se reconhecer como tal.
Na fila do caixa, não resisti. Comentei com a trabalhadora — ops, a “colaboradora” — que já não aguentava mais essa palavra.
Ela sorriu, meio sem graça.
— Ah, eu nem ligo…
Saí pensando justamente nisso. Talvez o êxito dessa estratégia esteja aí.
Ela não precisa convencer ninguém. Basta parecer natural.
E assim, entre promoções anunciadas no alto-falante e filas que seguem andando, o mundo do trabalho vai sendo reorganizado sem atrito.
Não por novas relações. Mas por novas palavras.
Tudo vira colaboração.
Tudo vira linguagem.
Tudo parece natural.
**Fátima Lessa é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.
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