
Foto: Michael Regan/FIFA
Nessas semanas de curso intensivo em Cabo Verde, uma palavra – morabeza – explicou muito do espírito com que a seleção estreante participou dessa Copa e saiu como a vitoriosa para milhões de corações. Esse termo do regionalismo crioulo traduz coisas legais como gentileza, acolhimento e um modo de viver mais relaxado e respeitoso com as diferenças. Análises sociológicas explicam que a morabeza é, inclusive, um fator de estabilidade social e política do país que preza muito pela democracia.
O Brasil tem com o pequeno arquipélago africano no Atlântico o laço histórico da colonização portuguesa e a mesma língua. Nos últimos anos, os governos dos dois países têm firmado acordos de cooperação nas áreas da habitação, educação, ciência, cultura e relações internacionais. Agora, com a enorme onda de interesse e simpatia dos brasileiros pela seleção cabo-verdiana, é de esperar que aumente o fluxo turístico para as ilhas.
As viagens aéreas diretas foram restabelecidas há dois meses, depois de interrompidas por seis anos. São dois voos semanais entre Praia, a capital cabo-verdiana, e o Recife, operados pela companhia estatal Cabo Verde Airlines. A rota Recife-Praia, percorrida em apenas quatro horas, liga o Brasil com a África Ocidental e ainda permite que brasileiros entrem na Europa a partir de Lisboa, a capital portuguesa.
Essa conexão deve incentivar, de lado a lado, muitas oportunidades para além do turismo. Uma das expectativas é estimular as compras no Polo de Confecções do Agreste pernambucano e de aumentar o acesso ao polo médico do Recife.
Para visitar Cabo Verde e seus atrativos em mais de 960 quilômetros de costa, os brasileiros não precisam de visto consular para turismo por até 30 dias, mas devem se cadastrar em uma plataforma do governo e pagar uma taxa. São muitas ilhas com praias de areias brancas e mar azul, de onde veio a inspiração para os ‘tubarões azuis’ da seleção de futebol.
São Vicente, a capital cultural do país, é considerada o berço das artes e onde é realizado, no mês de fevereiro, um animado carnaval que se mantém autêntico e com forte envolvimento popular. No último mês de abril, a ministra brasileira da Cultura, Margareth Menezes, em missão oficial a Cabo Verde, comentou que o Brasil pode passar a divulgar aqui o carnaval do parceiro histórico. Na visita, ela assinou acordos para a formação técnica e a coprodução audiovisual e, inclusive, o país africano vai aproveitar a experiência brasileira para a digitalização dos arquivos da sua produção visual e cinematográfica.
Para diminuir o déficit habitacional no arquipélago, foi firmada, em 2024, uma cooperação técnica entre os dois governos, a ONU-Habitat e instituições parceiras. O programa Simetria Urbana orienta sobre o uso de dados oficiais para o cálculo do déficit, o quantitativo e o qualitativo, aquele em que as moradias precisam de melhorias; garante capacitação técnica em obras e na gestão dos condomínios levantados.
O Simetria Urbana já inspirou os municípios de São Domingos e São Miguel a elaborarem, com o apoio da população, seus planos de habitação, e outros municípios deverão fazer o mesmo. Nascido em São Domingos, uma pequena cidade de 14 mil moradores que vive da agricultura e da pesca, o arquiteto Marco Aurélio Furtado, que lidera tecnicamente o projeto em seu município, tem formação acadêmica com o DNA brasileiríssimo da UFMG de Belo Horizonte.
Brasil e Cabo Verde mantêm ainda acordos na área de gestão de recursos hídricos e na regulação nos setores farmacêutico, alimentar e da saúde. Em dezembro do ano passado o Brasil doou purificadores de água portáteis após os estragos da passagem de um ciclone.
Interessado em atrair investimentos brasileiros, o governo cabo-verdiano já apresentou um plano que pode tornar aquele país uma plataforma para o comércio do Brasil com a África Ocidental e a Europa. Há também o desejo de aumentar a cooperação bilateral na educação superior, na promoção da paz e segurança no Atlântico, com reforço no controle marítimo e no combate ao tráfico internacional de pessoas e de drogas.
Os dois países têm visões coincidentes sobre as mudanças climáticas, o combate à fome e à pobreza e a reforma no Conselho de Segurança da ONU. Até o início desse ano a coordenação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS) era de Cabo Verde e agora está com o Brasil. Esse fórum composto por 3 países sul-americanos – Argentina, Brasil e Uruguai – e 21 africanos, tem a missão de evitar a presença de países externos à organização e a proliferação de armas nucleares na sua área de influência.
No comércio, o foco do relacionamento não são as trocas diretas, mas a melhoria do ambiente de negócios para investimentos de empresas brasileiras. Cabo Verde enfrenta na agricultura dificuldades com o clima seco e a dureza dos solos vulcânicos, mas isso começa a mudar com a adoção da irrigação, o uso de energias renováveis e a organização em cooperativas comunitárias.
A balança comercial pende fortemente para o Brasil, que exporta produtos alimentícios, animais vivos, óleos animais e vegetais, produtos químicos, materiais de construção e eletrodomésticos. O curioso é que o Brasil faz envios diretos de frutas, folhas e legumes frescos, como manga, mamão, figo, pitaya, alface, tomate e pimentão, para a rede de resorts e hotéis cabo-verdianos. No sentido inverso, o movimento ainda é modesto, com importações de conservas de peixe, na maioria.
O orgulho e a alegria com que a população de Cabo Verde recebeu neste domingo (05/07) a sua seleção de futebol eliminada após a perda por 3 a 2 para a Argentina no último dia 3 é mais um capítulo que ensina que uma Copa é muito mais do que esporte e que o conceito de derrota e vitória pode ter ângulos diferentes. O de dignidade humana, não. O poeta argentino Jorge Luis Borges escreveu sobre isso de uma forma clara e definitiva: “Há derrotas que têm uma dignidade que a vitória jamais alcançará”.
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