Hipocrisia, deboche e ostentação

Jairo Pitolé Sant’Ana*

As eleições de outubro estão batendo à porta, para o brasileiro decidir sobre como serão os próximos quatro anos do país. Prefiro acreditar que nos manteremos dentro da lógica e do bom senso, mantendo uma política (econômica e cultural) abrangente, inclusiva e libertária, derrotando novamente as pretensões retrógradas, excludentes e autoritárias, travestidas em discursos pseudo-moralistas, hipócritas e, muitas vezes, de puro deboche. Exemplos não faltam: há os consecutivos desmentidos do candidato do clã Bolsonaro sobre suas relações nada republicanas, abrangendo milicianos e (Daniel) Vorcaro, de quem não consegue se livrar. Na semana passada, se obrigou a mais uma narrativa, nada explicativa, sobre R$ 500 mil recebidos e notas fiscais emitidas, depois canceladas, para empresas relacionadas ao conglomerado do banqueiro.

Um outro exemplo, mais chegado a deboche, foi dado recentemente pelo ex-governador de Minas Gerais e, também, candidato a presidente, Romeu Zema. Chamou de “móveis velhos”, o acervo do Palácio Mangabeiras, sede do Governo de Minas Gerais, onde ele decidiu não morar durante seus mandatos. Após denúncia sobre o sumiço de várias peças do prédio, como livros, mesa de jantar com 40 lugares, cozinha completa, sala de cinema com projetor e cadeiras da década de 1940, tapetes, talheres de prata e copos de cristal, apenas rebateu: “Eu economizei, no mínimo, entre R$ 300 mil e R$ 400 mil por mês, morando em minha casa. (…) Um mês de economia paga todos esses móveis velhos que estavam lá e estão ainda”, negou o sumiço, em investigação pela Polícia Federal. Há ainda denúncias de que o Palácio Mangabeiras, projeto de Oscar Niemayer e paisagismo de Burle Marx, está com infiltrações e mofo. Desleixo e desfaçatez já foram vividos pelos brasileiros num passado bem recente. Melhor não repetir.

Mudando de assunto. Um vídeo do pastor Henrique Vieira, deputado federal pelo PSOL-RJ, me chamou a atenção na semana passada sobre um fato corrido ainda em junho. A justiça federal isentou a Igreja Universal do pagamento de impostos sobre a importação de um helicóptero, avaliado em R$ 35 milhões. Se baseou na imunidade tributária, um preceito constitucional que garante isenções às igrejas, desde que aplicada exclusivamente em atividades essenciais.

Alegam ser para uso de trabalho missionário, mas é preciso um veículo tão ostentoso? Não dá para “pregar a fé” de forma menos dispendiosa? Parece que não, porque, segundo o jornalista Rogério Gentile na Revista Piauí de abril deste ano, a Igreja Evangélica Comunidade Cristã também questionou (na justiça) o pagamento de IPVA sobre uma BMW X6 e um Jaguar XF V6 Luxury, sob o argumento de que os veículos serviam ao trabalho missionário. E ainda tem gente que acredita. E, pior, doa seu suadíssimo dinheiro a quem opta por gozar os prazeres terrenos.

 

*Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista em Cuiabá.

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