Trump e sua trupe

Jairo Pitolé Sant’Ana*

Foto: The White House

Economicamente, a tarifa adicional de 25%, imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros de cerca de 10 setores, apesar de indigesta, não é um bicho de sete cabeças. Os produtos sobretaxados (etanol, máquinas agrícolas, madeiras e móveis, vestuário, calçados, papel, aço, açúcar orgânico, pneus e equipamentos de mineração, principalmente) representam, no máximo, 25%, ou pouco menos de US$ 9,5 bilhões, dos US$ 37,7 bilhões de dólares exportados para eles em 2025. Aliás, valor inferior aos US$ 45,2 bilhões que eles nos venderam no mesmo período. Além disso, para driblar uma possível crise, o governo brasileiro já anunciou um pacote de apoio a empresas afetadas: linhas de crédito para capital de giro, auxílio logístico e suporte para busca de novos países compradores.

Provavelmente, pelas mesmas razões econômicas, a sanção norte-americana se restringiu a estes setores. Produtos, por exemplo, como suco de laranja, café em grão e carne bovina congelada e fresca, para citar apenas nesses, ficaram de fora da lista. Ficaram de fora, porque o suco de laranja brasileiro responde por mais da metade do consumo norte-americano, o café por 33% a 35%, e a carne bovina por 24%. Naturalmente, uma sobretaxa de 25% nestes produtos poderia elevar os preços no consumo, talvez com reflexo direto na inflação deles, que chegou a 4,2% no acumulado de maio, caindo para 3,5% em junho.

Se fossem apenas econômicas as motivações para o tarifaço, nada de novo haveria no front. O problema está na justificativa dada pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio. Segundo ele, não há como negociar com o atual governo (brasileiro). “(…) o presidente Lula e seu governo não negociaram com o EUA de boa fé. (…) No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo (…) e essas tarifas são o preço por isso”. Resumindo: o Brasil está sendo punido, por não aceitar, entre outras imposições, mexer no pix, ceder tarifas reduzidas exclusivas ou interferir nas decisões do STF contra redes sociais americanas. Por não aceitar a violação de sua soberania nacional.

Soa como uma declaração: “vou interferir para mudar este (atual) governo”. Três dos candidatos da extrema direita já se posicionaram favoravelmente a serem “terrivelmente” norte-americanistas, cedendo terras raras, pré-sal e vendendo estatais estratégicas a preço de banana, como fizeram com os postos Petrobras no governo passado. Além, é claro, de todo o retrocesso a ser vivido novamente caso isso aconteça. Pelo fato de os EUA já não ser mais o dono do mundo, mesmo arrotando ser, espera-se que a ameaça de Rubio não passe de uma frase. Afinal, o Brasil é a décima economia, tem uma diplomacia mundialmente reconhecida e faz negócios com vários países, especialmente a China. Concorrente direto dos EUA, em 2025, importou US$ 100 bilhões em produtos brasileiros. Trump e sua trupe devem pensar sobre isso.

 

*Jairo Pitolé Sant’Ana é jornalista em Cuiabá.

Em nossa seção de artigos do eh fonte destacamos opiniões de leitores, selecionadas por nossa equipe editorial para assegurar qualidade e pluralidade. Os artigos refletem as visões dos autores, não a posição oficial do eh fonte. Nosso propósito é incentivar discussões e debates, oferecendo um espaço para diferentes vozes, tendências e ideias.

Compartilhe

Assine o eh fonte

Tudo o que é essencial para estar bem-informado, de forma objetiva, concisa e confiável.

Comece agora mesmo sua assinatura básica e gratuita: