COLUNA

Francisca Medeiros

francisca@ehfonte.com.br

Informações que unem o campo e a cidade.

Gado mexicano ameaça negócios do Brasil com os EUA?

Foto: IA

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos anunciou a reabertura gradual da fronteira com o México para a compra de bovinos vivos, depois de mais de um ano de suspensão. E o Brasil com isso? Há risco de redução das importações da carne brasileira? O plantel norte-americano está tão desestruturado que ainda é distante a possibilidade de o país poder abrir mão da carne de outros mercados.  E o Brasil é um dos poucos países em condição de fornecer a proteína com a qualidade e o volume necessários e a preços competitivos.

Atualmente o número de animais no território norte-americano é o menor dos últimos 75 anos e a produção de carne está abaixo do que era há 20 anos. Em contraponto, a demanda interna vem crescendo com constância. Até porque nas últimas duas décadas houve o incremento de 52 milhões de pessoas ao maior mercado consumidor do mundo, formado, no total, por 349 milhões de habitantes.

Os pecuaristas e a indústria de carne americanos têm enfrentado reveses que começaram, há alguns anos, com uma sequência de secas severas, o que tem impactado nos custos da alimentação dos animais e da produção em geral. E o quadro piorou com o ressurgimento da mosca-da-bicheira do Novo Mundo no México, do outro lado da fronteira sul do país, uma séria ameaça sanitária à pecuária.

Essa mosca já estava erradicada nos Estados Unidos desde 1966 e, em 2025, foi registrado o seu reaparecimento oficial no país vizinho, que também a tinha eliminado em 1991. Razões de zelo sanitário levaram à suspensão da entrada de gado, mas a partir do dia 24 de agosto o trânsito voltará a ser permitido, inicialmente por apenas um ponto da fronteira. Tradicionalmente, o México é um fornecedor de animais vivos prontos para o abate nos frigoríficos norte-americanos, que estão com parte da capacidade ociosa.

As fêmeas dessa mosca parasita depositam os ovos em pequenos machucados ou feridas, incluindo o umbigo de bezerros recém-nascidos. Vorazes, as larvas que eclodem se alimentam do tecido vivo e provocam uma grave infecção, provocando dor intensa, inflamação profunda, perda de peso e risco de morte, se não tratada. No mês passado, houve registros do inseto no Texas, o que levará o país a investir muito dinheiro para voltar a erradicá-lo, um processo que pode levar anos.

Com a escassez da matéria-prima veio a reação também da indústria americana, que passou a revisar suas operações, até com fechamento de unidades. A Tyson Foods, a líder que detém 28% do mercado, fechou uma unidade no Nebraska que conseguia processar 5 mil bovinos por dia – cerca de 5% do abate diário no país. Em junho, a JBS USA – a segunda do setor, com 23% do mercado – fechou uma planta na Pensilvânia que processava 2 mil cabeças ao dia e outra no Tennessee. No ano passado, a companhia já havia fechado uma fábrica na Califórnia.

A volta do fornecimento de animais pelo México vem depois da adoção de medidas de vigilância e controle severos da mosca-da-bicheira. Uma das armas técnicas que está sendo testada no combate é a esterilização de milhões de moscas para tentar interromper o seu ciclo reprodutivo. O interessante é que essa mosca circula no hemisfério sul, de onde é nativa e onde os pecuaristas aprenderam a lidar com os efeitos da sua presença sem registros de grandes perdas.

O impacto da reabertura do fluxo do gado mexicano será, porém, relativo diante da quantidade de carne absorvida pelos Estados Unidos. O que os analistas acreditam é que vai dar um fôlego temporário aos frigoríficos que poderão operar usando mais da capacidade de suas plantas.

O Brasil, portanto, deve continuar a ser um importante fornecedor de carne processada para as refeições dos americanos. Até porque o rebanho bovino do México, de quase 20 milhões de cabeças, representa só algo próximo a 10% do brasileiro, de 195 milhões de reses.

No primeiro semestre, os EUA compraram 13% a mais da carne brasileira, comparado ao primeiro semestre de 2025. No ano passado, mesmo com a tarifa extra imposta por Donald Trump, as vendas brasileiras foram 18% superiores às de 2024, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A questão é que os Estados Unidos precisam da carne brasileira, que chega lá a preços competitivos, mais barata do que a produzida internamente, e pode ajudar, inclusive, no controle da inflação dos alimentos.

Outra evidência da dependência americana do produto externo é que, apesar da pressão da associação dos pecuaristas dos Estados Unidos para que Trump sobretaxasse a carne brasileira em 20% a partir de meados de julho, o produto ficou de fora da lista de itens que passam a pagar mais para entrar naquele mercado.

O Brasil deve continuar, pelo menos por ora, a ser um fornecedor estratégico para o mercado americano, mas a situação não é nem de perto um mar de tranquilidade para as exportações em geral. A China impôs cotas anuais, que já estão valendo, e a União Europeia, depois da entrada em vigor do acordo comercial com o Mercosul, adotou novas exigências sanitárias para a pecuária, que entram em vigor em 3 de setembro, receosa da concorrência com os produtos europeus.

Para a competitiva pecuária brasileira, não há espaço para relaxar a vigilância e o controle sanitário e é preciso avançar mais na produção sustentável – considerada nas esferas econômica, social e ambiental. E, mais do que nunca, as negociações econômicas multilaterais devem considerar as esferas políticas e o fortalecimento da diplomacia, em meio a fortes movimentos cada vez mais protecionistas em um mundo que se diz globalizado, mas que insiste em manter as assimetrias de sempre.

 

*Os textos das colunas e dos artigos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do eh fonte.

**A coluna do eh fonte pode ser republicada, desde seja mantida a integridade do texto, citada a autoria (nome da colunista/eh fonte) e incluído o link para o material original da página)

Compartilhe

Assine o eh fonte

Tudo o que é essencial para estar bem-informado, de forma objetiva, concisa e confiável.

Comece agora mesmo sua assinatura básica e gratuita: