Cassandra e o menino

Cassandra era uma das mais belas filhas de Príamo, o último rei de Troia. Sua formosura era tamanha que chamou a atenção até de Apolo, deus da música, da poesia, da dança e das profecias.
Em troca dos carinhos da moça, o deus lhe ofereceu o dom de antever o futuro e, a princípio, julgou que havia sido bem-sucedido. Mais tarde, porém, ela recuou e não cumpriu a promessa.
Enfurecido, Apolo condenou Cassandra a um infortúnio cruel: saberia de todo o mal de antemão, mas ninguém jamais acreditaria em seus alertas. Restaria-lhe a angústia de ver os troianos marcharem em direção a um abismo que só ela enxergava.
Nos últimos meses, ao se aproximar a chegada do chamado Super El Niño, que promete ser um dos mais severos fenômenos climáticos já registrados na história, é impossível não lembrar do mito grego a cada vez que a ciência tenta fazer o mundo entender o que está de fato acontecendo.
Estamos ampliando nosso conhecimento sobre o papel do dióxido de carbono na atmosfera desde o século XIX, a partir dos experimentos pioneiros da americana Eunice Foote. Os conceitos de efeito estufa e aquecimento global ganharam peso e evidências concretas desde então.
Hoje não resta a mínima dúvida de que a atmosfera, ao menos tal como a conhecemos desde os primórdios da civilização humana, é resultado de um delicado equilíbrio de fatores que interagem continuamente. Uma espécie de dança, ao mesmo tempo violenta e graciosa, e que envolve forças colossais.
Boa parte da história desse baile climático ficou aprisionada em pequenas bolhas de ar no gelo da Antártida. A coleta dessas amostras permitiu aos cientistas identificar que a temperatura média global permaneceu próxima de 14°C nos últimos 12 mil anos, com variação relativamente pequena.
Esse intervalo de estabilidade climática foi justamente a base para o desenvolvimento da agricultura, das cidades e das sociedades complexas. As flutuações, que sempre ocorreram naturalmente, se davam em intervalos tão longos que gerações inteiras nasciam, cresciam e morriam sem notar grandes mudanças.
Essa previsibilidade deixou de existir há pouco mais de 150 anos. Desde a Revolução Industrial e a consolidação do uso de combustíveis fósseis como a base energética do planeta, a temperatura média do planeta subiu cerca de 1,5°C e não dá sinais de retroceder.
A explosão das emissões de gases de efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (que registrou em 2025 uma concentração na atmosfera 150% maior do que no período pré-industrial), está redesenhando a dinâmica climática, com resultados trágicos até mesmo nos cenários mais otimistas.
Os 195 países signatários do Acordo de Paris, firmado em 2015, viram a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C até o fim deste século ser superada ainda em 2024. As projeções, caso nada mude nas atuais políticas em relação aos fósseis, indicam que a temperatura média global pode aumentar de 2,8°C a 3,0°C.
Mas pode ser ainda pior. Como bem lembrou o físico brasileiro Paulo Artaxo, a taxa global é muito influenciada pela temperatura dos oceanos, que aquecem muito mais lentamente do que os continentes. Em terra firme, explicou ele, o aumento médio pode chegar até 4,0°C. Imagine tal cenário em Cuiabá.
Mas, e o menino? Você pode me perguntar. Batizado por pescadores peruanos por ocorrer sempre próximo ao Natal, o El Niño (o menino Jesus) é o fenômeno cíclico de aquecimento das águas do Pacífico. Essa característica tem sido frequentemente usada pelos negacionistas climáticos para isentar a mão humana de seus efeitos, mas a realidade é outra.
Ocorre que, assim como outros fenômenos naturais, como as cheias e as secas, esse também vem tendo sua força intensificada pela queima de óleo, gás e carvão. Foi o que revelou um estudo recente publicado na revista Science e que analisou fósseis de coral das Ilhas Galápagos para traçar uma linha do tempo das temperaturas marítimas nos últimos mil anos.
Os registros indicaram que os ciclos do “menino” estão significativamente mais intensos (40%) e com maior variabilidade (37%) desde 1850. Ou seja, desde que passamos a extrair e queimar combustíveis fósseis indiscriminadamente. Neste novo contexto, o aquecimento do planeta intensifica o El Niño que, por sua vez, leva ainda mais calor para a atmosfera.
O fenômeno foi confirmado pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, na sigla em inglês) em junho, com 90% de chances de ser “muito forte”, 69% de chances de ser o mais forte desde 1950 e 100% de chances de se estender até os primeiros meses de 2027. É uma péssima notícia também para Mato Grosso.
O mais recente boletim do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontou que o Estado pode vivenciar fogo e secas extremas, especialmente na bacia do rio Paraguai, apontada como uma das mais críticas do país. Ondas de calor intensas também são esperadas, além de impactos no setor agropecuário.
E, enquanto o menino estiver aprontando suas traquinagens, Cassandra seguirá a gritar: a crise é real, está se agravando rapidamente e vai custar inúmeras vidas, especialmente nos países com poucos recursos para implementar medidas de adaptação. Conseguiremos escutá-la dessa vez?
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