Educação libertadora ou obediência fardada?

Foto: Divulgação
Há expressões que carregam uma história. “Educação libertadora” é uma delas. Parece ter saído diretamente de uma cartilha de educação crítica, de um debate sobre autonomia, consciência, participação e transformação social. É uma expressão historicamente associada à esquerda e, sobretudo, à ideia de que educar não é ensinar a obedecer, mas criar condições para que o sujeito pense, questione e compreenda o mundo em que vive.
Por isso, causa alguma estranheza encontrá-la circulando com tanta desenvoltura no discurso da ala conservadora da política. De repente, uma expressão que durante décadas esteve no campo da educação crítica aparece bonita, bem penteada e pronta para caber em plano de governo. E aí fica a pergunta: o que aconteceu com o significado da palavra no caminho?
Foi assim que levei meu susto ao ler o plano de governo do governador e candidato à reeleição Otaviano Pivetta (Republicanos). Lá está ela, com todas as letras: “Educação Libertadora”. Bonito, não? Só que, algumas linhas adiante, aparece também a proposta de ampliar as escolas militares e cívico-militares em Mato Grosso.
Aí a coisa fica interessante.
Durante participação no PodOlhar, do site Olhar Direto, Pivetta defendeu a expansão do modelo cívico-militar e afirmou que essas escolas recuperaram valores que, segundo ele, “tinham sido jogados fora” das escolas de Mato Grosso.
Jogados fora por quem, governador? Pelos professores? Pelos estudantes? Pelas famílias? E, principalmente: que valores são esses que precisaram de uma farda para ser encontrados?
“Educação libertadora” não é uma expressão da moda, dessas que podem ser colocadas em qualquer documento oficial para dar uma levantada no texto. Na perspectiva freiriana, ela está ligada ao diálogo, à consciência crítica, à autonomia, à participação e à capacidade de compreender e transformar a realidade. O estudante não é treinado para simplesmente obedecer. É provocado a pensar.
Uma escola pode e deve trabalhar respeito, responsabilidade, convivência e disciplina sem transformar a disciplina militar em modelo de educação. Quando a resposta proposta para os problemas da escola pública é ampliar as escolas militares e cívico-militares, a pergunta é inevitável: estamos falando de educação ou de controle?
E não, não se trata de defender escola bagunçada, aluno sem limite ou professor sem autoridade. Essa caricatura é conveniente demais. A questão é outra: disciplina para quê? Para formar sujeitos autônomos ou para produzir sujeitos obedientes?
Porque obedecer e pensar não são a mesma coisa.
É aí que entra a afirmação do pastor e professor universitário Teobaldo Witter: “Militarizar é fácil. Educar, não. Mas é a única saída duradoura.” É mais fácil estabelecer hierarquia do que enfrentar desigualdade, cobrar comportamento do que discutir por que tantos estudantes chegam à escola carregando problemas que a disciplina militar, por si só, não resolve.
É mais fácil falar em valores perdidos do que perguntar por que faltam políticas sociais, por que professores adoecem e por que a violência atravessa os muros da escola. É mais fácil mandar formar. Difícil é formar gente.
A militarização oferece uma resposta visualmente poderosa: uniforme, comando, cerimônia, ordem. Tudo muito organizado e muito fotogênico. A violência, entretanto, não costuma ser tão organizada.
Ela chega na mochila do estudante, na fome, na pobreza, no racismo, na violência doméstica, na falta de perspectiva, no abandono das políticas públicas e na precariedade dos serviços. E ainda existe uma velha mania de mandar a escola resolver problemas que ela não criou.
Nesse ponto, a crítica do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso, o Sintep-MT, acerta onde dói. Segundo a entidade, a militarização das escolas desvia o foco das causas da violência, do abandono das políticas sociais, do desmonte da educação e da falta de investimentos estruturais.
Mas, afinal, do que a “educação libertadora” de Pivetta pretende libertar o aluno? Da ignorância? Excelente. Da violência? Melhor ainda. Da desigualdade? Seria uma revolução. Ou da inconveniência de questionar a autoridade?
Aí já não é exatamente liberdade. É obediência com nome bonito.
*Fátima Lessa é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.
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