COLUNA

Rodrigo Vargas

rodrigov@ehfonte.com.br

Meio ambiente e sociedade no século 21

A pegada é coletiva

Foto: IA

Olhe ao seu redor e repare bem em tudo o que o cerca. Enquanto escrevo este texto, por exemplo, tenho à minha frente um prodígio da tecnologia feito de bauxita, quartzo, grafite, sais de lítio, cobalto, manganês, cassiterita, ouro, prata e paládio, entre outros materiais. No Brasil, costumamos chamar esse conjunto de notebook.

Ele está apoiado sobre uma mesa feita de restos triturados de madeira, unidos em uma peça sólida com resinas, calor e alta pressão: o MDF (sigla em inglês para placa de fibra de média densidade). Ao lado, esfria o café, plantado, colhido e processado no Triângulo Mineiro, em uma caneca de cerâmica feita de argila, óxidos metálicos e pigmentos.

Eu poderia seguir por dezenas de parágrafos descrevendo os objetos ao alcance das minhas mãos, mas creio que o exercício já está claro. Nossa vida cotidiana depende de ferramentas e comodidades que custam não apenas dinheiro, mas o funcionamento simultâneo de cadeias de produção que consomem quantidades colossais de minérios, água, combustíveis fósseis e energia.

No início da década de 1990, os pesquisadores Mathis Wackernagel e William Rees foram pioneiros na criação de critérios para medir quanto cada um de nós pesa sobre o frágil equilíbrio do planeta.

No livro “Our Ecological Footprint: Reducing Human Impact on the Earth” (Nossa pegada ecológica: reduzindo o impacto humano na Terra), lançado em 1996, eles consolidaram o termo que passaria a representar a demanda de cada pessoa sobre os recursos naturais.

A ideia seria “sequestrada” em meados dos anos 2000 por uma campanha de relações públicas da British Petroleum (BP), então a segunda maior petroleira privada do mundo.

A empresa popularizou na internet uma calculadora que permitia a qualquer pessoa estimar, a partir de perguntas sobre seus hábitos de vida e consumo, a sua “pegada de carbono”. O objetivo era transferir para o indivíduo uma responsabilidade que cabia, sobretudo, às grandes corporações poluidoras.

Pela lógica da campanha, para interromper a destruição gradual do planeta seria fundamental comer menos carne, tomar banhos mais curtos, reutilizar embalagens, reciclar o lixo doméstico e adotar um estilo de vida minimalista em quase todos os aspectos.

Teve gente que embarcou com tudo. Alguns passaram até a fazer cobranças morais sobre os hábitos de consumo alheios. Outros preferiram apontar a incoerência de demonizar canudos plásticos diante da crescente extração e queima de combustíveis fósseis pela indústria.

Segundo a base Carbon Majors, mantida pelo think tank InfluenceMap, apenas 32 produtoras de combustíveis fósseis responderam por metade das emissões globais de CO2 em 2024.

Isso não significa que as escolhas individuais sejam irrelevantes. Todos temos a ganhar com uma vida menos centrada no consumo. Voltando ao exercício do início do texto, você provavelmente conseguiria identificar ao seu redor uma porção de aquisições que não eram de fato necessárias. Reduzir a própria pegada faz bem ao bolso, à saúde e ajuda a entender do que realmente precisamos para viver.

Ocorre que, mesmo adotadas em larga escala, ações individuais não bastariam para enfrentar a crise climática. Mais do que somar a sua parte como consumidor, é preciso ser capaz de se multiplicar como cidadão.

Ou, como defende o escritor e ativista ambiental Bill McKibben: “a coisa mais importante que um indivíduo pode fazer é ser um pouco menos indivíduo e se unir a outras pessoas em movimentos grandes o bastante para promover mudanças”.

Influenciar leis, políticas públicas e medidas como o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis não se conquista com uma dieta à base de saladas. É preciso mobilização, estratégia e organização para fazer frente às inúmeras boiadas que ameaçam nosso presente e nosso futuro.

Nesta semana decisiva para o Brasil, em que duas visões distintas de desenvolvimento estão em disputa, a mobilização deixa de ser opção. Seja qual for o resultado, será preciso manter o ímpeto: o poderio econômico de setores como o petrolífero jamais se prendeu a fronteiras ideológicas, mas encontra terreno muito mais fértil onde cada um só cuida de si.

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