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Detergente ideológico

Fátima Lessa*

Foto: Divulgação

Hoje cedo fui lavar um copo, peguei o detergente Ypê de coco que fica na pia da cozinha e lembrei do alerta da Anvisa sobre alguns lotes suspensos. Fui conferir na internet. Bingo: o produto aqui de casa era justamente de um lote com final 1, incluído na lista. Resultado? Fui ao mercado e comprei outra marca. Simples assim.

Mas bastou entrar nas redes sociais para descobrir que, no Brasil polarizado, até detergente virou questão ideológica.

A polarização política brasileira atingiu um novo estágio: o da limpeza doméstica militante. Depois da suspensão de lotes de produtos da Ypê pela Anvisa, apoiadores bolsonaristas correram às redes para defender a marca como se estivessem protegendo a pátria ameaçada. E, em alguns casos, chegaram ao ponto de anunciar que continuariam usando os produtos mesmo diante do alerta sanitário e da recomendação da própria empresa para que os consumidores evitassem os itens listados.

A cena é curiosa. A própria Química Amparo, fabricante da marca Ypê, informou que manterá interrompida a fabricação de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes dos lotes com final 1, mesmo após conseguir liminar suspendendo temporariamente a decisão da Anvisa. Ou seja: a empresa preferiu agir com cautela. Mas a militância resolveu ser mais “ypista” que a própria Ypê.

Para essa turma, a lógica é simples, como integrantes da família proprietária fizeram doações à campanha de Jair Bolsonaro em 2022, qualquer medida da Anvisa automaticamente vira “perseguição política”. Não importa se há análise técnica, orientação preventiva ou comunicado oficial da fabricante. O importante é transformar detergente em trincheira ideológica. O importante é manter viva a guerra cultural, agora, também na pia da cozinha.

O episódio talvez revele uma das marcas mais profundas do bolsonarismo: a substituição gradual do senso crítico pela fidelidade absoluta ao grupo. O consumo deixa de ser uma escolha racional e se transforma em ato de militância. Não se compra mais um produto pela qualidade ou segurança, mas pela utilidade simbólica na guerra cultural permanente. Escolhe-se pelo alinhamento ideológico que ele representa.

No fim, a Anvisa alerta, a empresa recomenda cautela, mas os soldados digitais seguem firmes, esfregando prato com espuma patriótica na pia, orgulho no varal e a razão pelo ralo. Enquanto não houver uma decisão técnica definitiva, talvez ainda valha a velha máxima: melhor prevenir do que remediar … vai que, né?

A reação da militância lembra um pouco o efeito reverso da campanha contra as sandálias Havaianas protagonizada por Fernanda Torres, quando as críticas acabaram impulsionando as vendas.

A diferença é que, no caso da Ypê, ao que tudo indica, o consumidor comum sabe que com saúde não se brinca. Pelo menos desta vez, ninguém pareceu correr ao mercado para transformar detergente em manifesto político.

 

Fátima Lessa*  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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