COLUNA

Francisca Medeiros

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Novo olhar para a relação cidade e fauna silvestre

 

Por perda de abrigo natural, água e alimento, a fauna silvestre está cada vez mais perto das cidades e são bem comuns os registros de visitas assustadas de todo tipo de bicho. E para que essas ‘invasões’ não sejam arriscadas para os dois lados está mais do que na hora de adequar os espaços urbanos para a coexistência harmônica com esses novos vizinhos. Em Cuiabá, a atualização do Plano Diretor está em discussão e é a hora certa para se definir, entre outros pontos, as políticas de manejo responsável da fauna.

O plano elaborado pelo Executivo e que será submetido à Câmara Municipal se propõe a (re)planejar a capital em toda sua complexidade até o ano de 2050. Ele traz o conceito de ‘cidade esponja’ e defende a criação de infraestrutura ‘verde-azul’. Como o nome indica, é uma abordagem que integra o verde da vegetação com o azul das águas, essenciais para a sustentabilidade e resiliência das cidades e com mais bem-estar para seus habitantes, homens ou animais. São soluções baseadas na natureza que se contrapõem à “infraestrutura cinza” do concreto e do asfalto.

O texto cita que o município de Cuiabá vai implantar e fomentar corredores ecológicos, fundos de vale protegidos, jardins de chuva, áreas úmidas, reservatórios, pavimentos drenantes e ampliar a arborização urbana. A promessa é priorizar o sombreamento de calçadas, quintais, eixos de mobilidade, áreas escolares, equipamentos públicos e os bairros carentes de verde.

Sobre os animais o plano diretor fala da elaboração, por parte do município, de um “plano de mapeamento, manejo ético, controle populacional, vigilância sanitária e acompanhamento das grandes concentrações de animais comunitários e em situação de abandono”. Não fala de fauna silvestre, mas o conceito de ‘manejo ético’ pode abrir margem para sua inclusão.

Uma iniciativa do município de São Paulo e que pode inspirar outras cidades foi a elaboração, há menos de dois anos, do manual de Cidade Amiga da Fauna. Com apoio do Instituto Ampara Animal, o projeto orienta sobre práticas inclusivas e de convivência mais tranquila com a fauna silvestre. Entre as 1.320 espécies silvestres do município, são 236 tipos de vertebrados terrestres exclusivos da Mata Atlântica e 98 já na lista de ameaçados de extinção no Estado de São Paulo.

Entre os problemas diagnosticados na maior cidade brasileira estão a redução e o empobrecimento das áreas verdes; o uso de vidros nas construções que aumentam a colisão de aves; o tipo de fiação elétrica usada e a eletrocussão de aves e mamíferos; a transmissão de zoonoses por gatos e cães domésticos que ficam soltos em espaços públicas; o descarte inadequado de resíduos sólidos; o atropelamento de animais; a pouca diversidade de espécies usadas na arborização e a baixa atenção aos recursos hídricos.

De uma forma resumida, o manual recomenda o manejo adequado dos 4 As: água, alimento, acesso e abrigo. E alerta, por exemplo, do risco das linhas de pipas para as aves; das cercas elétricas e concertinas, com sugestão de evitá-las perto de áreas verdes ou em muros que se conectam com árvores. O documento deixa claro que a melhor forma de ofertar comida para a fauna local é com o aumento de plantas atrativas e não com rações colocadas ao ar livre.

Os corredores verdes, previstos no Plano Diretor de Cuiabá, além de essenciais para a conservação dos ecossistemas, podem conectar fragmentos de habitat e oferecer passagem segura para os animais. Além de alimento e abrigo, dão suporte para a reprodução e para processos naturais, como as migrações.

Há corredores ecológicos artificiais em todo o mundo, tanto em rodovias quanto em parques urbanos e rurais, muitos com foco em espécies específicas. Nos Estados Unidos, ao longo de 90 quilômetros de uma só rodovia foram criadas 41 travessias – passagens subterrâneas e superiores – para peixes e outros animais selvagens. No Canadá, as passagens de um parque visam aos ursos-pardos e alces; na Holanda, são focos o veado-vermelho, o javali e o texugo-europeu, espécie em risco de extinção; e no Quênia, os elefantes.

Em Oslo, na Noruega, já há muitas vias de circulação segura para mamíferos, mas uma ganhou visibilidade internacional: o “corredor de abelhas” por onde os insetos conseguem acessar pólen de uma grande variedade de plantas ao longo do trajeto. E no Japão foram construídos túneis ferroviários para tartarugas.

Talvez uma das migrações anuais mais curiosas de animais, que conta com o cuidado das autoridades e da população, seja a dos caranguejos-vermelhos que saem do interior de uma ilha australiana até a ilha de Java, na Indonésia, distantes cerca de 350 km, rumo ao Oceano Índico. A travessia tem função reprodutiva e é garantida por pontes especiais e, no verão, as estradas são fechadas e boletins periódicos informam o andamento do deslocamento dos caranguejos.

Outra iniciativa que ganhou atenção mundial foi da pequena vila inglesa de Long Newton, onde, durante a pandemia de Covid-19 foram plantadas flores silvestres à beira de uma rodovia movimentada. A intenção era melhorar a polinização das plantas, mas aconteceu o efeito colateral da desaceleração dos motoristas. Antes os carros passavam em alta velocidade perturbando os cerca de 300 moradores. Agora, a beleza da floração inspira um momento contemplativo de pé no freio.

No Brasil, as pontes de corda ou passarelas de dossel sobre rodovias e estradas já estão se tornando comuns. Elas reduzem o atropelamento de animais arborícolas, como os micos e macacos. Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, teve várias delas implantadas em suas ruas e em rodovias próximas para proteger especialmente o Zogue-zogue-de-Alta-Floresta, uma espécie rara da Amazônia em risco de extinção, entre outros animais como o macaco-aranha e o bugio. O programa “Alta Floresta Não Atropela” inclui sinalização educativa e campanhas para motoristas.

É essencial, enfim, que todos que pensam e decidem o design urbano considerem que ele precisa ser mais amigável à biodiversidade. E que, além da dimensão técnica, considerem a ética na relação homem-animal. Os bichos precisam de alimento, água e abrigo e que não sejam expostos ao sofrimento e à dor. E que tenham o direito de visitar ou viver em ambientes saudáveis onde consigam expressar seus comportamentos típicos, numa convivência mais harmônica com a sociedade.

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