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Faltam trabalhadores ou falta política pública?

 Caiubi Kuhn*

Foto: Rafael D Marques/Secom-MT

Nos últimos anos, várias declarações de autoridades do estado de Mato Grosso afirmaram que não conseguiam encontrar mão de obra para diversos setores, como a área da construção civil e os serviços urbanos. Esse problema tem sua origem em três fatores: a falta de pessoal qualificado, a baixa remuneração paga e a elevada demanda devido à economia aquecida.

Conforme o Censo 2022, no Brasil, quando analisado o nível de instrução da população com 25 anos ou mais, 35,2% não tinham instrução ou não haviam concluído o ensino fundamental; 14,0% haviam terminado o ensino fundamental, mas não concluíram o ensino médio; 32,2% haviam concluído o ensino médio ou tinham ensino superior incompleto; e 18,4% haviam concluído o ensino superior. Embora os dados no Brasil tenham melhorado, é fato que os números demonstram que o país ainda vive um sério problema estrutural em relação à educação.

Conforme dados do governo do estado de Mato Grosso, disponíveis no portal Dados MT, no terceiro trimestre de 2025, a renda média de um empregado no estado era de R$ 3.346,00, enquanto a de um autônomo era de R$ 3.542,00, e a renda média de um empregador era de R$ 9.034,00. Já a taxa de desemprego era de 2,33%. Conforme dados da PNAD Contínua divulgados em 2024, a taxa de informalidade em Mato Grosso foi de 35,3%, abaixo da média nacional, que estava em 38,8%.

Mato Grosso há mais de três décadas tem apresentado um crescimento econômico muito acima da média nacional, sendo o estado brasileiro que mais cresceu nesse período. Os dados sociais de Mato Grosso acompanham os dados econômicos e apresentam números melhores que os nacionais; porém, em 2024, mesmo assim, 13,3% da população de Mato Grosso, ou seja, cerca de 484 mil pessoas, continuavam vivendo abaixo da linha da pobreza.

A falta de mão de obra da qual algumas autoridades tanto reclamam é um reflexo direto de uma política de qualificação inadequada e de remunerações ruins para algumas funções.

O Estado precisa investir no desenvolvimento de cursos nas mais diversas áreas, visando dar oportunidades à parcela da população que necessita de apoio para se qualificar. O desenvolvimento de qualificações alinhadas com as demandas dos setores público e privado do estado permite melhorar a produtividade e aumentar a renda da população. Para tornar as vagas mais atrativas, é preciso também que as remunerações oferecidas sejam melhores.

É compreensível quando um empresário reclama da dificuldade de encontrar funcionário qualificado, mas, quando se trata de um político, o que se espera não é uma reclamação, mas sim o desenho de políticas públicas que possam solucionar o problema. Nesse caso, trata-se da elaboração de políticas públicas que envolvam oportunidades de qualificação e o pagamento de melhores remunerações. O crescimento do estado de Mato Grosso precisa chegar a todos, em especial àqueles que precisam de educação, qualificação, trabalho e renda digna.

 

*Caiubi Kuhn é geólogo, doutor cotutela em Geociência e Meio Ambiente (Unesp) e Environmental Sciences (Universidade de Tubingen), professor na UFMT, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo).

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