Mundo Azul Te Amo: da lágrima de uma mãe à urgência de um olhar sobre o autismo

Por Josana Salles*
Ainda invisível aos olhos de muitos, mas já transformando o cotidiano de centenas de lares, o Projeto Mundo Azul Te Amo e seu Centro de Atendimento Humanizado de Autistas e Neurodiversos emergem como um farol de esperança em Mato Grosso e, ao mesmo tempo, como um retrato de uma ausência que não deveria existir. Ancorado no bairro Buriti, em Cuiabá, a instituição não apenas preenche um vazio histórico na assistência a famílias carentes, mas expõe, de forma silenciosa, a fragilidade das políticas públicas voltadas ao autismo.
Atualmente, a casa atende cerca de mil pacientes e seus familiares e enfrenta uma fila de espera de três mil pessoas. Cada profissional, entre psicólogos, médicos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, nutricionistas e assistentes sociais, doa seu tempo como voluntário, movido por uma missão que nasceu do amor de uma mãe e se multiplicou em uma rede de acolhimento. O que deveria ser exceção, no entanto, tornou-se regra: o cuidado depende, muitas vezes, da solidariedade.
O que começou como um grito silencioso de uma família hoje ecoa como um coro coletivo. E isso revela mais do que uma história inspiradora, revela uma lacuna estrutural. Porque, se por um lado o projeto emociona, por outro levanta uma pergunta inevitável: por que ainda são iniciativas assim que sustentam o atendimento a tantas famílias?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), condição que afeta a comunicação e a interação social, já é reconhecido como multifatorial, com forte base genética associada a fatores ambientais. Ainda assim, o diagnóstico e o acompanhamento seguem desiguais no país, especialmente fora dos grandes centros. Cada caso é único, mas a dificuldade de acesso ao cuidado é, infelizmente, coletiva.
A história de Cristiane Lisboa dos Santos sintetiza essa realidade. Mãe de Arthur Miguel, ela percorreu um caminho tortuoso em Cuiabá quando o filho, aos dois anos, não falava nem andava. Durante a busca por respostas, enfrentou o descrédito: foi chamada de “mãe ansiosa” e viu sinais claros serem minimizados. Em um contexto de desinformação, houve até interpretações espirituais para comportamentos que exigiam atenção clínica.
O diagnóstico só veio em São Paulo. E, com ele, o impacto emocional: o medo, a incerteza e o desconhecimento que ainda cercam o autismo em muitas famílias. Arthur, hoje com 16 anos, cursa Eletrotécnica no Instituto Federal de Mato Grosso, desafiando estigmas, mesmo com limitações importantes, como a dificuldade de leitura e escrita. Sua trajetória reforça o que a ciência já aponta: o espectro é amplo, diverso e incompatível com generalizações simplistas.
Mas foi o próprio Arthur quem transformou a dor em ação. Após presenciar a crise de um colega, fez um pedido simples à mãe: “cuida dos meus amiguinhos”. A partir daí, o que era uma luta individual tornou-se uma iniciativa coletiva. Começaram em uma sala cedida; depois, a própria casa virou espaço de atendimento por três anos. Hoje, o projeto conta com 42 profissionais voluntários e uma estrutura que segue protocolos reconhecidos, como o DSM-5, além de uma abordagem multidisciplinar.
O cuidado vai além do consultório. Inclui orientação nutricional, apoio às famílias, visitas sociais e estratégias para reinserção social. Em muitos casos, trata-se do primeiro contato real dessas pessoas com algum tipo de acolhimento. Há pacientes de todas as idades, de bebês a idosos, inclusive diagnósticos tardios que revelam décadas de invisibilidade.
Relatos extremos, como o de pessoas isoladas por anos em quartos escuros, não são apenas histórias chocantes, são sintomas de um sistema que falhou em enxergar. E quando o paciente não consegue chegar até o atendimento, o projeto vai até ele. Esse movimento, mais do que assistência, é reparação.
Atualmente, a iniciativa conta com apoio pontual, como o do Sindicato das Empresa de Transporte e Carga de Mato Grosso (Sindmat), que auxilia nas despesas da nova sede, conquistada em 2025. Ainda assim, a sustentabilidade depende de esforços contínuos e da mobilização da sociedade. O projeto também atua na preparação de jovens para o mercado de trabalho, ampliando horizontes que muitas vezes lhes são negados desde cedo.
Diante desse cenário, o Mundo Azul Te Amo não é apenas um exemplo de solidariedade bem-sucedida. É também um alerta. Enquanto famílias percorrem verdadeiras via-crúcis em busca de diagnóstico e tratamento, iniciativas como essa seguem tentando preencher lacunas que deveriam ser responsabilidade estruturada do Estado.
A lágrima de uma mãe deu origem a um projeto que hoje acolhe milhares. Mas a pergunta que permanece é maior do que a história que emociona: até quando o cuidado com o autismo dependerá mais do esforço individual do que de uma política pública efetiva?
Sinais do autismo: o que observar no dia a dia
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode se manifestar de diferentes formas e intensidades. Alguns sinais de atenção incluem:
- Comunicação: atraso ou ausência de fala, pouca resposta ao nome e dificuldade de interação verbal.
- Interação social: pouco contato visual, dificuldade de compartilhar interesses e de brincar com outras pessoas.
- Comportamentos repetitivos: movimentos repetitivos, apego a rotinas e resistência a mudanças.
- Aspectos sensoriais: reações intensas ou reduzidas a sons, luzes, texturas e cheiros.
- Desenvolvimento e aprendizado: atraso motor, dificuldade de coordenação ou habilidades muito desiguais.
- Regulação emocional e alimentação: crises frequentes, seletividade alimentar e dificuldade com frustrações.
Os sinais variam de pessoa para pessoa. Mesmo em casos mais leves, a avaliação especializada é fundamental para diagnóstico e acompanhamento adequados.
*Josana Salles é jornalista em Cuiabá
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