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Nada mudou na missa. Bem… quase

Fátima Lessa*

A missa estava linda. E eu mal tinha me acomodado na igreja quando uma mulher desmaiou.

Confesso que, por alguns segundos, achei que tinha baixado um santo. Não fui a única a me assustar. Algumas pessoas se levantaram, outras olharam para trás, tentando entender o que acontecia. A mulher rapidamente se recuperou. Não precisou de médico, nem de SAMU. As orações foram suficientes. E o padre? Continuou a celebração com a serenidade de quem já viu muita coisa acontecer dentro de uma igreja.

Depois descobri a explicação para tamanha tranquilidade: ele precisava celebrar outra missa às nove horas, em outra igreja. O relógio também tem seus mistérios litúrgicos.

Antes de sair de casa eu tinha uma preocupação bem mais simples. Queria saber se ainda me lembrava das respostas da missa. Fazia tempo. Será que eu ainda saberia acompanhar aquele diálogo antigo entre altar e assembleia? Soube.

Ao entrar na igreja e me acomodar no banco, uma novidade chamou minha atenção. Foi então que percebi que a modernidade havia chegado antes de mim. Eu ainda estava preocupada em lembrar as respostas da missa, enquanto a igreja já operava com QR Code.

Durante séculos, a hora das oferendas teve protagonistas bem definidos: as tradicionais sacolinhas vermelhas, conduzidas solenemente pelos corredores.

Elas continuam lá. Mas agora dividem espaço com a tecnologia.

Enquanto alguns procuravam moedas e notas na carteira, outros apontavam o celular para o QR Code e faziam a contribuição com poucos toques na tela.

Confesso que achei a cena curiosa. Jesus multiplicou pães e peixes. A Igreja multiplicou as formas de pagamento.

A fé permanece analógica. As oferendas, nem tanto.

O Reino dos Céus continua o mesmo. O PIX, felizmente, é novidade.

Depois da surpresa inicial com a tecnologia, descobri que minhas preocupações eram infundadas. As respostas continuavam guardadas em algum lugar da memória.

O QR Code podia ser novidade. A liturgia, não. A missa seguia reconhecível em cada palavra.

Foi no momento da adoração que aconteceu a cena mais engraçada da manhã. O padre puxava os louvores e a igreja respondia em coro: “graças e louvores se deem a todo momento ao Santíssimo e digníssimo Sacramento”.  Eu sempre gostei daquelas respostas coletivas. Soavam tão afinadas que pareciam ensaiadas. Havia momentos em que eu desconfiava da existência de um microfone escondido em algum lugar, encarregado de espalhar aquela harmonia pela igreja.

Tudo corria perfeitamente até que o padre interrompeu a sequência:

-Só uma coisa. Não é “digníssimo”. É “santíssimo”.

Pronto.

Não sei se foi o jeito como ele falou ou o contraste entre a solenidade do momento e a correção gramatical-teológica, mas comecei a rir.

Daquele jeito discreto que a gente acredita estar controlando. Não estava.

Descobri isso quando alguns pescoços começaram a se virar na direção exata do banco onde eu estava sentada. Um senhor que estava sentado no mesmo banco me acompanhou, mas com um sorriso silencioso. Outros, nem tanto: olhavam para mim com a cara de censura e reprovação.

No dia seguinte, soube a diferença. “Digníssimo” é tratamento para pessoas. Ali, tratava-se de outra categoria.

Aprendi. Ou quase.

Porque, algum tempo depois, veio outro momento que me deixou menos divertida e mais intrigada. Durante a homilia, o padre comentou que Leonardo Boff teria mentido nos seus livros. Sem perceber que estava falando mais alto do que imaginava, soltei uma “mentira”. Ou pelo menos achei que ninguém tivesse ouvido.

Logo em seguida, o próprio padre acrescentou que Boff também escreveu muitas coisas bonitas. O comentário suavizou a frase anterior, mas fiquei pensando como surgem certas convicções tão categóricas.

No dia seguinte, conversei com outro sacerdote sobre o assunto. Ele levantou uma hipótese simples: talvez o colega não tenha lido as obras de Boff, apenas comentários sobre elas. Na hora pensei, sem nenhuma caridade teológica, que ele devia frequentar os mesmos grupos das tias do WhatsApp, da internet.

Após o encerramento da celebração, voltei para casa com a impressão de que nada havia mudado. As respostas da missa continuavam as mesmas. Os ritos continuavam os mesmos. As orações continuavam as mesmas.

No fim das contas, descobri que ainda sabia todas as respostas.

Só continuo tendo dificuldade em ficar calada.

**Fátima Lessa  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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