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Os fósseis vão às escolas

 

Caiubi Kuhn*

Para muitas pessoas é uma grande surpresa saber que em Mato Grosso já viveram, na era mesozoica, grandes dinossauros como Pycnonemosaurus nevesi e os Sauropodes, ou que, na era cenozoica, tatus gigantes, preguiças gigantes e mastodontes (elefante brasileiro) já caminharam pelos solos mato-grossenses. Desde o século XIX, diversas expedições científicas realizam coletas de fósseis no estado. O destino destes materiais, na maioria das vezes, eram grandes museus de outras partes do país ou do planeta.

Embora conhecidos pelo mundo, a distância entre os fósseis e a população do estado fez com que muitos destes materiais ficassem fora do alcance diário dos mato-grossenses. Nas últimas décadas, com o surgimento de alguns museus no estado, essa realidade começou a mudar. Porém, mesmo assim, muitas vezes o museu mais próximo de uma escola ou comunidade fica a algumas centenas de quilômetros. Por outro lado, os locais onde ocorreram grandes descobertas de fósseis às vezes estão apenas alguns quilômetros de distância da escola. E mesmo tão perto de locais tão importantes, é comum encontrar nessas comunidades desde crianças até idosos que nunca viram um fóssil.

Para auxiliar a mudar essa realidade, o Museu de História Natural de Mato Grosso, a Universidade Federal de Mato Grosso e o Instituto Ecossistemas e Populações Tradicionais têm realizado exposições itinerantes levando os fósseis até as escolas. A proposta surgiu da necessidade de enfrentar alguns desafios na popularização da ciência, entre eles o de tornar possível às pessoas de todas as classes sociais o acesso a acervos museológicos. Se para quem possui recursos é difícil ir a um museu que fica distante, para quem vive com pouco dinheiro isso se torna algo quase impossível. Outro objetivo da iniciativa é possibilitar o uso de acervos museológicos para educação. Coleções como rochas, minerais, fósseis e acervos arqueológicos possuem um potencial fantástico para auxiliar no ensino de conteúdos relacionados à história da Terra, à tectônica de placas, à evolução da vida, ao uso dos recursos naturais, à química, à física, entre outros assuntos.

As coleções museológicas, acompanhadas de banners e explicações adequadas para cada público, funcionam como ferramentas educacionais fantásticas. As exposições itinerantes foram planejadas em dois modelos distintos: no primeiro, a exposição é montada em um local na cidade e as pessoas se deslocam até lá para ter acesso ao material; no outro modelo, a equipe do projeto vai até as escolas e monta a exposição por um dia, atendendo a todos os alunos do local.

Embora as exposições itinerantes não substituam o museu, elas acabam propiciando o acesso para muitas pessoas que talvez nunca teriam a oportunidade de conhecer esses materiais. O acesso, além de ser importante para educação, ainda possui outro papel relevante, que é fazer com que a população do estado entenda que nosso território é rico em história e pré-história. Embora não seja comum ver em livros informações sobre Mato Grosso, por aqui muita coisa já foi encontrada e ainda existe muito mais para ser descoberto. E por que não serem nossos jovens os futuros desbravadores que encontrarão as novas descobertas?

Porém, para que essas iniciativas sejam fortalecidas e cheguem a todo o estado, é preciso que existam estratégias de fomento a projetos de extensão. É preciso compreender que a divulgação científica e a experimentação são ferramentas fundamentais na educação, e que sem elas a ciência fica um pouco mais abstrata e o ensino menos atrativo. Desta forma, é muito importante que tanto o governo do Estado crie políticas públicas para fomentar a divulgação científica, como também que as prefeituras busquem construir parcerias com esse fim. O exemplo que já deu certo com fósseis indo às escolas pode também ser um caminho para outras iniciativas, das mais diversas áreas. Divulgar a ciência é auxiliar as nossas crianças a construírem o futuro. Divulgar a ciência é também valorizar o nosso estado

*Caiubi Kuhn é geólogo, doutor em Geociência e Meio Ambiente (UNESP), professor na UFMT e presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO)

 

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