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Um ponto facultativo e o debate entra em surto contra o servidor

Fátima Lessa

Bastou um ponto facultativo colado ao feriado de 21 de abril, que caiu numa terça-feira, para o debate público entrar em curto-circuito e reacender um velho discurso. Não com a carga de trabalho, não com a qualidade dos empregos, não com a precarização. O incômodo é outro: o de que o trabalhador, especialmente o servidor público, descansa demais. É preguiçoso.

Este ano, em Cuiabá, a tese ganhou voz oficial quando o prefeito Abilio Brunini (PL) resolveu reduzir o mundo do trabalho a uma conta de budega: se a iniciativa privada trabalha, o serviço público deveria trabalhar também. Afinal, diz ele, não seria “justo” que quem paga impostos esteja trabalhando enquanto o servidor folga.

O raciocínio, além de simplista, parte de uma premissa falsa e conveniente: a de que existe um “pagador de impostos” de um lado e,do outro,  um “servidor que recebe”. Como se fossem grupos distintos. Não são. Servidores públicos também pagam impostos sobre consumo, renda e serviços, como qualquer outro trabalhador. A diferença é que, além de pagar, ainda precisam ouvir que vivem às custas dos outros, são apontados como problema e entram na conta como despesa.

A lógica é sedutora, rápida, direta… e errada.

O serviço público não existe para dar lucro, competir ou “acompanhar o mercado”. Existe para garantir direitos. E direitos não entram em recesso. Por isso, enquanto o debate acontece, hospitais continuam funcionando, policiais seguem nas ruas e serviços essenciais operam normalmente, com ou sem feriado, com ou sem indignação nas redes.

Mas esse detalhe costuma atrapalhar a narrativa.

Mesmo em datas como essas, as estruturas públicas seguem ativas, muitas vezes em regime de plantão. Ponto facultativo não é paralisação.

Há ainda um aspecto convenientemente ignorado nessa comparação: o servidor público não presta um serviço individual, mas cumpre uma função de interesse coletivo, regulada por lei e submetida a deveres específicos. Isso inclui estar disponível em situações críticas, muitas delas justamente fora do “horário comercial”.

O que se vende como “equivalência” é, na prática, uma simplificação grosseira. Coloca na mesma balança estruturas que não têm a mesma função, nem a mesma lógica, nem a mesma responsabilidade, e chama isso de justiça. No caminho, direitos viram privilégios. E privilégio, como se sabe, é sempre o do outro.

Enquanto isso, os dados insistem em ser inconvenientes.

O Brasil não é um país que trabalha pouco. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a jornada média semanal gira entre 39 e 41 horas. Ainda assim, a produtividade patina. O problema não é falta de esforço, é a forma como o trabalho está organizado.

Trabalha-se muito, com baixa produtividade e, em muitos casos, sob condições precárias. A discussão sobre descanso, portanto, não é periférica. É central.

E há algo ainda mais desconfortável de admitir: descanso não é luxo. É condição de funcionamento.

A Organização Mundial da Saúde, em parceria com a OIT, já associou jornadas longas a maior risco de doenças cardiovasculares, ansiedade e esgotamento. O excesso de trabalho está ligado a centenas de milhares de mortes por ano no mundo.

No Brasil, o retrato é familiar. Dados do INSS mostram que, em 2023, mais de 288 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais. O número saltou para mais de 470 mil em 2024 e passou de 546 mil em 2025. Ansiedade e depressão lideram. Mas, aparentemente, o problema segue sendo o feriado prolongado.

E não se trata apenas de uma fala isolada. Quando somadas, essas críticas revelam um padrão: questiona-se o feriado, o servidor, o sindicato.

Não é um movimento aleatório. Esse discurso vem sendo amplificado, sobretudo por setores da direita e da extrema direita, em formatos simples, feitos para circular rápido e gerar adesão ou indignação nas redes. Funciona porque apela ao senso comum: alguém está “descansando demais”.

O detalhe é que isso não resolve o problema de quem trabalha demais.

Nesse cenário, o debate sobre o fim da escala 6 por 1, seis dias de trabalho para um de descanso,  ganha contornos quase irônicos. De um lado, jornadas exaustivas; de outro, indignação com alguns dias de pausa.

O equilíbrio parece ter saído de cena. E o debate, também. No lugar, sobrou o surto.

 

Fátima Lessa*  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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