Como um fato em Cuiabá inspirou filme vencedor em Gramado
Por Adriana Mendes
O longa Cinco Tipos de Medo, dirigido pelo cuiabano Bruno Bini e premiado com quatro Kikitos no Festival de Gramado, nasceu a partir de uma reportagem publicada no Diário de Cuiabá em 2007. Uma história real, emblemática na capital mato-grossense, que ocorreu no bairro Jardim Colorado. Ali surgiu a ideia que, anos depois, se transformaria em roteiro de ficção.
“A matéria era sobre a comunidade que se reuniu para tentar tirar um traficante da cadeia, porque ele garantia a segurança do bairro. Me chamou muito a atenção por ser um lugar onde o poder público estava falhando em suas atribuições. Era uma comunidade deixada à própria sorte”, conta Bruno Bini.
Primeiro veio o curta, Três Tipos de Medo. A história abriu caminho para o longa-metragem, que foi inscrito pela primeira vez em um edital em 2015.
O diretor leu a matéria da jornalista Aline Chagas Portela, que na época era repórter da editoria de Cidades. Ela lembra como a pauta chegou pelo colega Adilson Rosa, setorista de polícia. “Ele ouviu na ronda dele que tinha uma comunidade se reunindo”. Aline destaca que o diretor do Diário de Cuiabá, Gustavo Oliveira, e o editor Anselmo de Carvalho (in memorian) apoiavam as “histórias mais loucas”.
“Era um dia muito quente e, quando cheguei ao bairro, vi o medo estampado nas pessoas, escondidas dentro de casa. Aos poucos as pessoas foram falando, queriam ser ouvidas, foi um momento muito marcante na minha carreira”.
A matéria, publicada em 12 de maio de 2007, repercutiu além do esperado. “Era um BO (Boletim de Ocorrência) de rotina, mas quando você ouve as pessoas e coloca no papel, aquilo mexe com muita gente. Houve discussão entre políticos e especialistas. Era uma Cuiabá ainda tentando entender o seu tamanho”, conta Aline.
Com o título “Novo Colorado pede a volta de Sapinho”, a reportagem contava que os moradores estavam em uma verdadeira cruzada para liberar o traficante Flávio Castro de Lima, conhecido como Sapinho, considerado “protetor” do bairro. Eles chegaram a organizar um abaixo-assinado e um bingo para pagar por um advogado que o tirasse da cadeia.
Aline soube que o texto havia sido lido por Bruno Bini, ainda jovem, que sonhava com o cinema. “Eu nunca imaginei que aquela história chegaria tão longe. Quando fui informada que o Bruno tinha feito um roteiro inspirado na minha matéria, pensei: ‘Gente, eu não acredito! Uma pessoa leu o que escrevi e transformou em cinema’. Agora, com Cinco Tipos de Medo ganhando prêmios, dá muito orgulho ver uma história de Cuiabá contada nas telas”.
Para a jornalista, a trajetória da reportagem até virar filme é um exemplo do alcance do jornalismo. “Quando a gente escreve, não imagina o impacto que uma história pode ter. Saber que aquilo que eu fiz debaixo do sol quente em 2007 inspirou um filme premiado hoje é emocionante.”
Do curta ao longa-metragem
O curta Três Tipos de Medo, estrelado por Jonathan Haagensen, retratava o impacto da prisão de Sapinho na vida dos moradores de um bairro em Cuiabá. Foi lançado em 2016. O traficante foi morto em 2018 por policiais militares, episódio que gerou revolta entre a população local.
No longa, Bruno Bini expandiu os personagens e ampliou o arco narrativo, aprofundando as relações e trazendo uma abordagem mais abrangente.
“É um tema universal sobre a violência urbana e a forma como ela afeta cada um de nós. De repente, você pode ter a vida completamente transformada ao se tornar vítima dela”, destacou o diretor.
Premiação em Gramado
O cinema mato-grossense fez história no 53º Festival de Cinema de Gramado ao conquistar quatro dos prêmios mais importantes da mostra com o longa-metragem “Cinco Tipos de Medo”. O filme levou os Kikitos de melhor filme, melhor roteiro e melhor montagem, além de render a Xamã o prêmio de melhor ator coadjuvante. A atriz cuiabana Bella Campos, que faz Maria de Fátima na novela “Vale Tudo” da TV Globo, também participa do elenco. A previsão é que o filme chegue às salas de cinema em 2026.
Sinopse do filme Cinco Tipos de Medo
Depois de quase perder a vida em uma UTI, um jovem músico chamado Murilo (João Vitor Silva) se apaixona e se envolve com sua antiga enfermeira Marlene (Bella Campos), que está presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), um traficante do bairro. Um dia, a policial Luciana (Bárbara Colen), movida por vingança, prende Sapinho, com a ajuda do advogado Ivan, que tinha intenções secretas. Enquanto Marlene teme as consequências ao se entregar à paixão pelo antigo paciente, Sapinho é considerado o verdadeiro protetor e responsável pela segurança da comunidade local, apesar de controlar o movimento criminoso do bairro. Essas cinco vidas se entrelaçam num caminho sem volta.
Compartilhe
Assine o eh fonte
Tudo o que é essencial para estar bem-informado, de forma objetiva, concisa e confiável.
Comece agora mesmo sua assinatura básica e gratuita:

