Mochilas de dinheiro e R$ 75,8 milhões em movimentações suspeitas no TCE-MT
Por Adriana Mendes
A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que determinou prisões e afastamentos na Operação Tomada de Contas detalha como funcionaria um esquema de desvio de recursos públicos e conversão dos valores em dinheiro vivo no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT). Segundo a Polícia Federal, os investigados dividiam tarefas que iam da gestão de contratos e pagamentos à realização de saques e ao transporte de dinheiro em mochilas.
A análise bancária citada na investigação abrange o período de 1º de janeiro a 22 de outubro de 2025 e aponta R$ 75,8 milhões em movimentações consideradas suspeitas. O presidente do tribunal, Sérgio Ricardo, preso nesta quinta-feira (29), é apontado como líder da estrutura. Segundo a PF, ele teria usado o cargo para autorizar contratos, nomear pessoas para funções estratégicas e influenciar setores responsáveis pelos pagamentos.
Nas contas vinculadas a Sérgio Ricardo, a PF identificou 150 saques em espécie, que somaram R$ 15,6 milhões em menos de dez meses. Desse total, 64 foram realizados na boca do caixa do posto da cooperativa Sicoob instalado no próprio tribunal e 86 em terminais de autoatendimento.
Ao fundamentar a prisão preventiva, o ministro Og Fernandes afirmou que o presidente do TCE-MT “ocupa posição de comando da estrutura criminosa investigada”.

Foto: o consultor jurídico-geral do tribunal, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia; Roseli Loss; e o presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo
Foram presos também:
Grégory Paiva Pires Moreira Maia: consultor jurídico-geral do TCE-MT, investigado por realizar saques em dinheiro vivo que chegaram a R$ 32 milhões
Gustavo Fernandes da Silva: assessor jurídico comissionado, suspeito de receber R$ 15 milhões de Grégory Paiva
Felipe José Glinke: assessor jurídico da presidência do TCE-MT, suspeito de receber R$ 9 milhões
Rosely Losso: secretária, suspeita de atuar como braço direito de confiança do presidente do TCE-MT. Ela é chefe de gabinete da Presidência do TCE-MT
Adriano Barros Antunes: ex-cunhado, servidor suspeito de fazer a movimentação e circulação dos valores sacados. Segundo a PF, ele teria recebido R$ 2,5 milhões
Divisão de tarefas
O consultor jurídico-geral do tribunal, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, é apontado como um dos articuladores jurídicos e financeiros do grupo e o maior destinatário individual dos recursos sob investigação. Segundo a decisão, ele teria recebido cerca de R$ 32,3 milhões em diferentes contas bancárias. A PF também investiga a possível utilização de empresas para ocultar valores, entre elas uma holding familiar e uma empresa ligada à criação e comercialização de cavalos.
Outros dois servidores são descritos como operadores financeiros: o assistente jurídico Gustavo Fernandes da Silva, subordinado a Grhegory, e o assessor jurídico da Presidência Felipe José Glinke. A investigação atribui a eles recebimentos de aproximadamente R$ 15,9 milhões e R$ 9,9 milhões, respectivamente, além da participação em saques e no manuseio de dinheiro.
A chefe de gabinete da Presidência, Roseli Loss, seria uma das principais responsáveis por sacar os valores das contas vinculadas ao núcleo central. Conforme os autos, ela realizou pessoalmente saques que somaram R$ 3,5 milhões, inclusive operando contas ligadas a Sérgio Ricardo antes de se tornar procuradora bancária.
Segundo o trecho da investigação reproduzido na decisão, Roseli “realiza procedimentos em aparelho celular que a Polícia Federal interpreta como utilização da biometria facial de SÉRGIO RICARDO DE ALMEIDA, opera contas das quais não é titular e movimenta recursos sem possuir vínculo bancário próprio relevante junto à cooperativa”.
Em seis ocasiões, os valores sacados por ela teriam sido entregues a Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado do presidente e secretário executivo de comissão permanente do tribunal.
Mochilas carregadas de dinheiro
Adriangelo é apontado como responsável pelo transporte e pela circulação física dos valores. A decisão descreve imagens de uma pessoa com características compatíveis com as dele “ingressando no posto bancário com mochila vazia, saindo posteriormente com a mochila aparentemente carregada e dirigindo-se às dependências do TCE/MT”.
Grhegory também foi registrado “acondicionando blocos de dinheiro em uma mochila após a preparação do numerário por funcionária da agência”.
Saques por QR Code
As imagens analisadas pela PF mostram Gustavo realizando operações presenciais no caixa, incluindo saques por “QR Code, novamente sem a utilização de cartão bancário”.
Já Felipe foi registrado fazendo sinais para que a atendente retardasse a entrega do dinheiro ao perceber a presença de terceiros na agência. Em um episódio de 7 de outubro de 2025, segundo a decisão, ele “teria assinado documento aparentemente em branco, recebido o numerário, devolvido parte dos valores à funcionária da agência e, aparentemente, a quantia teria sido anotada em um caderno mantido na gaveta da atendente”.
A decisão também aponta indícios de fracionamento das retiradas para evitar alertas aos órgãos de controle: “Em diversas oportunidades, os saques foram realizados em valores situados imediatamente abaixo dos limites de comunicação automática ao COAF”.
Mudança após vigilância
Segundo a investigação, o grupo alterou a forma de movimentar os recursos depois de perceber a presença de policiais na agência, em outubro de 2025.
“Diante do conhecimento da diligência policial, os investigados atuaram de forma a ocultar a prática delitiva, readequando o modus operandi para não levantarem mais suspeitas”, registrou o ministro.
Após o episódio, os saques presenciais foram temporariamente reduzidos, e os valores passaram a ser acumulados em aplicações financeiras. A investigação identificou a retomada das retiradas em dinheiro vivo em maio de 2026.
Outro lado
O TCE-MT informou que cumprirá as determinações STJ envolvendo integrantes do colegiado e servidores. Em nota assinada pelo vice-presidente, Waldir Júlio Teis, a instituição reafirmou o compromisso com “a normalidade administrativa, a continuidade dos trabalhos e a regularidade das atividades institucionais”.
Para organização processual, foram suspensos o expediente e os prazos processuais desta quinta-feira (29), além da sessão plenária prevista para terça-feira (3). O tribunal afirmou que seguirá atuando “com responsabilidade e serenidade”, em observância à legalidade e à sua missão de controle externo.
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