COLUNA

Francisca Medeiros

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Elas nas ciências agronômicas

Foto: reprodução

A caminhada das mulheres sempre teve mais obstáculos do que a dos homens. Mas não são barreiras naturais; são culturais, sedimentadas pela cultura machista. Assim como em todas as áreas, a ciência reflete esta cultura e, nas ciências agronômicas, um segmento talvez mais conservador, são ainda mais fortes o silenciamento e a invisibilização das profissionais – extensionistas e pesquisadoras.

Na semana passada, a Agência Estadual de Notícias do Governo do Paraná trouxe uma reportagem com relatos reveladores das primeiras extensionistas que, muitas décadas atrás, foram a campo para levar orientação aos produtores. Uma delas, Rose Pontes, que ingressou no serviço público em 1971, lembrou que, inicialmente, as mulheres não podiam usar calças compridas ou dirigir carro e que eram orientadas a não se casarem.

A preocupação dos chefes era que o casamento ou a maternidade atrapalhariam o desempenho profissional. Era uma coisa ou outra: quando uma moça resolvia se casar, era ‘convencida’ a pedir demissão.Historicamente, a contribuição das mulheres para o avanço da agropecuária é muito relevante, mas pouco divulgada e reconhecida. Mas, com ou sem visibilidade, o trabalho avança nas frentes da produção, gestão, ensino, assistência técnica e nos laboratórios de pesquisa.
Muitas das descobertas científicas femininas foram divisores de água, marcaram um antes e um depois.
Vamos ver um exemplo com impacto global: o transporte refrigerado de alimentos perecíveis, mesmo que por longas distâncias, mantém a qualidade e garante o consumo seguro deles. Isso mudou radicalmente o rumo da produção do comércio

Esta pesquisa é de Mary Engle Pennington, uma química e bióloga norte-americana, nascida em 1872. Bem jovem, ela cursou química na universidade, mas não recebeu o diploma por ser mulher e só levou para casa um ‘certificado de proficiência’.

Mary persistiu nos estudos e na investigação científica e o título de PhD veio aos 22 anos de idade. Suas pesquisas levaram à criação de padrões para o processamento das carnes e prevenção da contaminação de alimentos. Ela se tornou a primeira mulher a chefiar um laboratório da FDA, a agência reguladora dos Estados Unidos para alimentos e medicamentos, similar à brasileira Anvisa.

Outro exemplo com assinatura pioneira feminina: as pesquisas sobre biologia dos solos revolucionaram a agricultura brasileira, sob a liderança de Johanna Döbereiner (1924-2000), uma engenheira agrônoma tcheca que se mudou para o Brasil aos 24 anos, onde viveu e trabalhou até os 75 anos.

Ela descobriu o grande benefício da associação das plantas e bactérias fixadoras de nitrogênio da atmosfera nas raízes, diminuindo ou até eliminando o uso de fertilizantes nitrogenados. Esta simbiose se mostrou mais importante com as leguminosas, família da ervilha, feijão, soja, entre outras culturas comerciais.

O resultado é que o produtor economiza em adubo sem perda de produtividade da lavoura. Este marco tecnológico alavancou a agricultura tropical que ganhou competitividade no mundo. Aos 72 anos, Johanna Döbereiner foi indicada ao Nobel de Química. Ela morreu em 2000, e ainda na ativa.

Anna Maria Primavesi foi outra engenheira agrônoma e pesquisadora que dedicou a vida ao ensino e à ciência. Nascida na Áustria em 1920, emigrou para o Brasil em 1948, já com doutorado em Cultura dos Solos e Nutrição Vegetal. Ela e o marido, também agrônomo, lecionaram por muito tempo na Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Primavesi produziu uma vasta obra acadêmica que encantou gerações – incluída a minha. Foi incansável em desvendar a beleza da microvida do solo, visto como um organismo vivo, e as correlações entre solo, água, plantas e ser humano.

Em sete décadas de pesquisa, criou as bases para o desenvolvimento da agroecologia e da agricultura orgânica brasileiras. Ela morreu em 2020, aos 99 anos de idade.

Mary, Johanna e Anna são só três exemplos de cientistas notáveis que são conhecidas nas universidades. E mesmo com contribuições tão definitivas, o reconhecimento ainda está restrito à academia e a nichos técnico-profissionais.

A igualdade de gênero nas ciências agrícolas é, ainda, uma meta, um desejo. A composição da Academia Brasileira de Ciências Agronômicas, que reúne cientistas da área, mostra a disparidade: dos 74 acadêmicos titulares, apenas 15 são mulheres.

Em uma das universidades mais conceituadas do país, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), foram necessários 122 anos para que fosse nomeada uma diretora para a instituição, a engenheira agrônoma e professora Thais Vieira.

Na Embrapa, que é presidida pela pesquisadora Silvia Massruhá, 32% dos funcionários são mulheres. Sob gestão feminina, a proporção na diretoria executiva passou de 25% para 40% e a intenção anunciada é chegar a 60%. Um alento, sem dúvida. Em Mato Grosso, a Embrapa Agrossilvicultura, com sede em Sinop, é dirigida pela pesquisadora Laurimar Vendrusculo.

Com tanto a fazer pela equidade de gêneros, algumas datas, como o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, servem para pautar a questão.

É este também o papel do 15 de outubro, Dia Internacional da Mulher Rural, instituído pela ONU em 1995. E o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, em 11 de fevereiro, instituído há 9 anos pela Unesco, em colaboração com a ONU Mulheres, visa estimular a igualdade de gênero na ciência.

E, para encerrar, vale lembrar que machismo, misoginia e sexismo não são comportamentos exclusivos dos homens. E também que quando nós, mulheres, defendemos ações efetivas e urgentes de promoção da igualdade de gênero, não estamos falando apenas sobre nós. É sobre a necessidade de construção de uma sociedade igualitária, em que homens e mulheres, livres e plenos, são encorajados a fazerem cada um sua parte.
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