Antes das urnas, a disputa passa pelas convenções  

Por Fátima Lessa

À primeira vista, o cenário eleitoral de Mato Grosso para 2026 parece praticamente desenhado. Os principais pré-candidatos ao governo e ao Senado já estão colocados. Nos bastidores, porém, uma etapa decisiva ainda pode alterar alianças, candidaturas e estratégias: as convenções partidárias.

É nesse momento que os partidos oficializam seus candidatos, confirmam alianças e tentam resolver disputas internas capazes de influenciar os rumos da eleição.

Em Mato Grosso, as convenções já começaram. Nesta segunda-feira (20), o Partido Missão foi o primeiro a oficializar uma chapa, com o empresário Rafaell Milas como candidato ao governo do Estado e Thales Sartorelo como vice. A reunião foi realizada de forma on-line, sem transmissão ao vivo. Registrado pela Justiça Eleitoral no fim de 2025, o Missão participa pela primeira vez de uma eleição estadual em Mato Grosso.

Embora frequentemente tratadas como uma etapa protocolar do calendário eleitoral, especialistas afirmam que as convenções continuam exercendo papel decisivo, sobretudo quando há grupos políticos concorrentes dentro de uma mesma legenda.

Na maioria dos casos, no entanto, o ato  apenas formaliza decisões tomadas previamente pelas principais lideranças partidárias. O consenso costuma ser construído semanas ou até meses antes do encontro oficial, reduzindo a possibilidade de surpresas na votação dos delegados.

“O normal é as lideranças tomarem a decisão antes. A convenção existe porque a lei exige sua realização para oficializar as candidaturas. Casos em que a decisão vai para o voto durante a convenção existem, mas são raros”, afirma o historiador e cientista político Alfredo da Motta Menezes, que já presidiu um diretório partidário em Mato Grosso.

Isso, entretanto, não significa que as convenções tenham perdido importância. Quando os acordos fracassam ou diferentes grupos disputam o comando da legenda, a reunião partidária pode se transformar no principal campo de batalha antes da eleição.

O cientista político Lourembergue Alves lembra que Mato Grosso já viveu momentos em que convenções alteraram o rumo da política estadual. Um dos exemplos ocorreu em 1965, quando a antiga UDN precisou escolher, por votação, seu candidato ao governo entre três nomes de peso. A decisão provocou divisões internas que acabaram favorecendo a vitória do adversário nas urnas. Em 1985, a convenção do PMDB também foi marcada por uma disputa intensa pela candidatura à Prefeitura de Cuiabá.

Segundo ele, nas últimas décadas,  esses encontros passaram a funcionar, em grande parte, como instâncias de homologação de acordos construídos previamente. Ainda assim, divergências internas continuam capazes de influenciar diretamente o resultado das eleições.

Em Mato Grosso, os sinais de que esse cenário pode se repetir já aparecem antes mesmo da realização das principais convenções.

No União Brasil, convivem dois projetos distintos para a sucessão estadual. De um lado, lideranças defendem a candidatura do senador Jayme Campos ao governo. De outro, o grupo liderado pelo ex-governador Mauro Mendes, presidente estadual do UB, trabalha para consolidar o apoio ao governador Otaviano Pivetta, do Republicanos. No PL, embora a pré-candidatura do senador Wellington Fagundes esteja mantida, parte das lideranças municipais também demonstra aproximação com o grupo de Pivetta.

É justamente em situações como essas que as convenções deixam de cumprir apenas uma exigência legal e passam a definir qual projeto político prevalecerá dentro de cada partido.

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