COLUNA

Sônia Zaramella

soniaz@ehfonte.com.br

Relatos e fatos, pessoais ou não, do passado e do presente de Cuiabá e de Mato Grosso.

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Nós e o pequi

 

Foto: Obra do artista Sebastião Silva

Fevereiro chegando ao fim e com ele vai indo também a temporada do pequi em Cuiabá. Nas feiras e pontos de venda no centro e em bairros da cidade, o cheiro forte e marcante do fruto será trocado, aos poucos, por outros aromas.

Ainda que esteja em expansão – o que repercute nos hábitos e costumes de seus moradores – tanto nossa capital quanto os ‘cuiabanos raiz’ reservam um lugar cativo para o pequi, principalmente na culinária. É o meu caso e da maioria de amigos e familiares conterrâneos.

Em Cuiabá e seu entorno, o pequi de tamanho pequeno, bem amarelinho, é o preferido da cozinha local. Fruto do Cerrado, é usado para pratos tradicionais – arroz com pequi, galinha com pequi, costelinha de porco com pequi, quiabo com pequi, ou simplesmente cozido e temperado sem mistura.

Nesta coluna de hoje, para não reverenciar o pequi sozinha, busquei cuiabanos nativos que nem eu – membros da família e amigos – e perguntei a eles se gostam da fruta e por que? Dez me atenderam.

Breno Amorim foi direto: “adoro pequi, quando criança catava no mato”.

“Gosto de pequi desde que nasci”, afirmou Pio Portugal, enfatizando sua preferência pelo fruto do Cerrado.

Vera Macedo lembrou que foi criada comendo pequi. “Gosto do sabor e do perfume dele. Amo”.

No Centro-Oeste, onde é cultivado, não há meio termo para o pequi. Ou se ama ou se odeia esse fruto de aroma adocicado e intenso. Aqui, pelos nossos cantos cuiabanos, o pequi é idolatrado, conforme comprovam as respostas à coluna dos demais conterrâneos que consultei.

“Amo” (Carlinhos Alves Correa), “Adoro pequi” (Viviane Barros), “Adoro, porque é uma delícia” (Álvaro Duarte), “Amo pequi, o sabor é maravilhoso” (Mara Barros), “Gosto de pequi, é saboroso e nutritivo” (Eraldo Pereira), “Gosto do sabor que dá ao arroz” (Tinho Costa Marques).

O pequi pode ser encontrado também em tamanhos médio e grande, além da capital, em vários municípios de MT – Poconé, Livramento, Santo Antônio de Leverger, Várzea Grande, Chapada dos Guimarães, Barão de Melgaço, Barra do Garças e São Félix do Araguaia, entre outros.

Mas quem ostenta, no estado, o título de “Rei do Pequi” é o município de Ribeirão Cascalheira, a cerca de 800 quilômetros da capital. Produtores da agricultura familiar de lá projetaram para 2025/2026 um aumento de 30% na colheita de pequi, alcançando cerca de 520 toneladas. A safra movimenta o mercado desde setembro passado.

De volta para ‘a cuiabania e o pequi’, registro o inédito relato à coluna da amiga e cantora de sucesso Deize Águena. Ela me contou que faz parte de um grupo de 15 a 20 pessoas, denominado Amigos do Pequi, que se encontra duas vezes ao ano, em Cuiabá, entre os meses de novembro e fevereiro (na temporada), para saborear pratos à base do fruto.

“São pessoas que gostam do pequi. Eu adoro e faço de todo jeito que pensar”, disse. Além dos pratos tradicionais, Deize listou o pirão de pequi, a feijoada vegana com pequi e o brigadeiro de pequi. Sábado último (21), no aniversário de “uma amiga que ama pequi”, um dos pratos da festa foi “arroz com pequi e carne seca desfiada por cima”, revelou ela.

O pequi é um dos frutos do Cerrado mais estudado nos aspectos nutricional, ecológico e econômico. Com sabor marcante, é ainda utilizado como tempero e como matéria-prima para a produção de licores e sorvetes, além de óleos medicinais.

Outra característica do pequi é a forma de saboreá-lo. Sua textura é oleosa, e, ao comer a fruta, deve-se raspar a polpa amarela sem morder o caroço, que é espinhoso. Desavisados já foram parar no hospital por causa de espinhos de pequi na boca. Considerando isso, para ajudar os iniciantes, existe até um tutorial na internet ensinando como comer pequi.

Na região de Cuiabá, a época do pequi começa em setembro/outubro, se estendendo até fevereiro. Na atual temporada, os amigos Pio (Capão Grande/VG) e Tinho (Manso/Chapada) me presentearam com sacolas do fruto que, congelado, serviu para o preparo de muitos almoços. Grata pela lembrança! Já na espera da safra 2026/2027.

À coluna, dos 10 cuiabanos perguntados se gostam ou não do pequi, apenas dois disseram não. “O cheiro é muito forte e não me agrada” (Mário Neto) e “não” (Humberto Frederico).

De toda maneira, todos eles, conterrâneos apreciadores ou não do fruto, já devem ter lançado mão, em alguma situação de suas vidas, da expressão popular “não vale um pequi roído”.

Incorporada há décadas pelo linguajar cuiabano, quer dizer que, após comido, o caroço do pequi é o resto, algo que já cumpriu sua função e não tem mais utilidade, ou valor.

Pessoalmente, aplico bastante o ‘não vale um pequi roído’ em ano eleitoral, como este de 2026, para selecionar candidatos que se lançam ao pleito mato-grossense. Acho perfeito!

 

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