COLUNA

Francisca Medeiros

francisca@ehfonte.com.br

Informações que unem o campo e a cidade.

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Quer ir pra roça? Então estude!

Até meados da década de 1960 havia mais brasileiros no campo do que nas cidades. Exatamente em 1965, na esteira da industrialização, esta chave virou. De lá pra cá o processo se acelerou e a população rural hoje está em torno de 15%.

Pelo viés da lógica demográfica, portanto, a maior chance é de quem está lendo esta coluna ter entrado em contato com as coisas da roça nos bancos de escola, em algum passeio, lendo um livro ou vendo novelas. Por ter morado ou trabalhado no campo, deve ser caso raro. E é de trabalho rural o nosso assunto hoje. 

Nos últimos dez anos, 1,1 milhão de jovens entre 16 e 32 anos trocou o campo pelas zonas urbanas. Em 2012 eles eram 4,7 milhões; em 2022, 3,6 milhões. Com êxodo tão intenso, quem está cuidando das lavouras, das criações, das agroindústrias? Certamente é na maioria uma turma mais madura, feita de pais e avós. 

Jovens que deixam a origem rural para trás buscam uma nova profissão, meio de vida, até um reposicionamento social. Muitos enfrentam dificuldades de continuar os estudos onde vivem com a família, até porque vem diminuindo o número de escolas rurais. 

Claro que há nuances que diferenciam as motivações do filho de um proprietário e de um trabalhador rural. Mas há também muito em comum, coisas de marco geracional. O trabalho no campo ainda é visto como penoso e com pouco reconhecimento, especialmente por quem vive na cidade.

Se há preconceito gerado pelo desconhecimento, também existe uma barreira real: a falta de qualificação para as funções cada vez mais complexas da agropecuária. 

O setor acumula uma sequência de revoluções tecnológicas, desde a introdução do arado puxado por animais, a irrigação, passando pelos tratores e insumos químicos, melhoramento genético, conexão à internet, uso de satélites, GPS, máquinas autônomas, drones, internet das coisas e Inteligência Artificial. 

E como se inserir profissionalmente nesse mundo dinâmico e exigente? Com educação, capacitação, aprimoramento. E aqui tem um recorte interessante que pode ajudar o jovem a se manter ou retornar para o campo. Este grupo que já nasceu conectado, que cresceu com a popularização das redes sociais, está pronto para atuar em ambientes complexos e atraentes.

Estudiosos já percebem que o campo está atraindo profissionais mais jovens. Uma pesquisa de 2018 feita pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA) mostrou que 21% das decisões no campo eram tomadas por produtores com idade entre 26 e 35 anos. 

Em 2022 uma pesquisa feita pelo Instituto Mato-grossense de Pesquisa Agropecuária (Imea), ligado ao sistema Famato, investigou o perfil e hábitos dos produtores de Mato Grosso. E descobriu que smartphones eram usados por 91,9% dos agricultores que participaram da pesquisa e por 80,3% dos pecuaristas. E também que a falta de qualificação da mão-de-obra era vista como problema para 44,47% dos agricultores e ainda que quase 80% deles preparavam a sucessão familiar. 

O “sempre fiz assim e deu certo” pode ainda ser fala de alguns produtores resistentes às inovações, mas a profissionalização é caminho sem volta para quem produz e para quem participa diretamente do processo. É condição, não uma opção. 

O que se espera é que os sexagenários e septuagenários que estão tocando os negócios rurais não se sintam sós, que tenham para quem passar o bastão, com segurança e certeza de continuidade. E que as relações entre diferentes gerações valorizem igualmente a experiência e a inventividade.

E para quem deseja permanecer ou se mudar pro campo, estude. Muito e sempre.

 

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