COLUNA

Sônia Zaramella

soniaz@ehfonte.com.br

Relatos e fatos, pessoais ou não, do passado e do presente de Cuiabá e de Mato Grosso.

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Temporais no verão de Cuiabá e o novo normal

Foto: Rodrigo Vargas

O verão em Cuiabá, tradicionalmente marcado por altas temperaturas e chuvas quase diárias, desta vez surpreendeu os moradores da capital pela quantidade de temporais. Chuvas pesadas, trovoadas, ventos fortes e raios deixaram a população apreensiva, principalmente no recém-terminado fevereiro.

Naquele mês, foram registrados eventos atípicos: 95,8mm de chuva entre os dias 22 e 23; 53 mm no dia 10; 21mm e 32 mm entre os dias 5 e 6, conforme análise feita à coluna pelo professor doutor de Climatologia da UFMT Rodrigo Marques.

“Tivemos quatro dias de fevereiro com chuva que somaram 201,8 mm, sendo responsáveis por 74% das chuvas do mês”, disse. Justamente nesses dias pipocaram mensagens de conhecidos no meu aplicativo.

 “É muita água, né?”, comentou uma amiga. “Só chuva por aqui”, relatou outra. “Cuiabá não aguenta tantos temporais”, alertou mais uma conhecida. “Até um filhote de jacaré apareceu aqui no Mané Pinto”, contou, surpresa, a colega.

Os sites locais noticiaram alagamentos de ruas, de moradias e prédios públicos, transbordamento de córregos, queda de árvores, além de interrupções de energia e de abastecimento de água na cidade, enquanto a Defesa Civil emitia alertas sobre as tempestades.

Com tantas chuvas fortes, a sensação de que o verão deste ano está muito diferente dos anteriores tomou conta de grande parte dos moradores da cidade. Mas será que as estatísticas confirmam essa impressão?

O verão começou oficialmente em 21 de dezembro e acaba em 20 de março. Dados da Estação Meteorológica Convencional de Cuiabá, da Rede do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), registraram 248,5 mm de chuva em dezembro passado, 70,2 mm em janeiro e 274,4 mm até o dia 25 de fevereiro.

Conforme o professor Rodrigo Marques, “em fevereiro, houve chuva um pouco acima da média histórica (entre 1991-2020), que é de 261,9 mm para o mês”. Isso também ocorreu em dezembro, quando as chuvas atingiram 248,5 mm e a média é de 200 mm.

Ele observou, entretanto, que janeiro foi mais seco que o esperado (média histórica é de 238,3 mm), chovendo apenas cerca de 30% do previsto.

Assim, se for considerado que a média histórica de chuvas para o período de dezembro, janeiro e fevereiro é de 700,2mm e o volume de chuvas neste verão foi de 593,1 mm, conclui-se que as chuvas ainda estão abaixo da média histórica local para a estação”, destacou o professor.

Ele explicou que a sensação de muita chuva neste verão em Cuiabá tem relação com o fato de que houve um período muito seco, entre 2019 e 2024, além do registro das chuvas volumosas em quatro dias em fevereiro.

Paranaense de Londrina, Rodrigo Marques reside em Cuiabá desde 1986. É Doutor em Meteorologia pela USP. Em conversa com a coluna, ele destacou que “vivemos em período de mudanças climáticas”, sendo que, “para nossa região, se prevê um aumento de temperatura, o que tende a ocasionar mais condições de temporais no período chuvoso, no caso, entre outubro e abril”.

“Essa situação se aproxima de se transformar no novo normal climático para nossa região, ou seja, temporais com grandes volumes de chuva tendem a se tornar cada vez mais comuns”, alertou.

Para Cuiabá, este cenário exige providências rápidas em várias frentes. É notório que a capital tem obras civis em vias importantes e que convive com a falta de limpeza no geral, incluindo córregos e bueiros. Há muito mato nas ruas e entorno de bairros. Enfim, apresenta uma soma de situações que fazem as chuvas fortes pesarem para os moradores.

“A enchente urbana é um problema que nós criamos”, destacou Rodrigo Marques, citando a falta de política pública de habitação, “o que força a ocupação de áreas mais baratas para garantir o lucro da especulação imobiliária e, assim, expõe a população ao risco das inundações”.

A música de Tom Jobim – “São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração” – sempre nos ajuda a lembrar que a estação está acabando, é tempo de renovação e também de mais chuvas.

Aguarda-se, pois, ações do Comitê Gestor de Redução de Riscos de Desastres, anunciado recentemente pela prefeitura de Cuiabá para o enfrentamento a chuvas intensas, alagamentos e outros eventos climáticos extremos na cidade.

A torcida é para que as providências saiam do papel e da habitual discurseira.

 

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