Existe relação entre desperdício de comida e canetas emagrecedoras?
Uma postagem recente de Glória Kalil, a respeitada consultora de estilo, inspirou a volta a um assunto mais ou menos recorrente por aqui: o desperdício de alimentos, um absurdo que persiste do campo às mesas e que deve ser combatido. Ela alertou para a necessidade de se reformular os códigos sociais que normalizam o descarte de comida de boa qualidade em nome de uma etiqueta da abundância do bem-receber das recepções que querem parecer chics. Para Kalil, são códigos “insensíveis, desproporcionais e cafonas”.
A consultora observa que o vaivém dos garçons para a renovação das travessas, mesmo que ainda não estejam vazias, reflete a ideia de uma etiqueta de hospitalidade que deixa o anfitrião temeroso que, se diminuir a oferta de comida, mesmo com a maioria dos convidados já saciada, pode parecer que ele não sabe receber ou que queira economizar. E importa mais manter o status do que lidar com sacos de comida que vão para o lixo ao fim das recepções.
E as redes sociais também têm mexido no ritual das festas e na vista grossa para o desperdício. No mundo digital as mesas devem ser apetitosas primeiro aos olhos, com pratos variados e diferentes e, de preferência, intocados para não ‘sujarem’ a imagem que se quer exibir. Parecem banquetes servidos em mesas-cenário.
E há outro fator que pode parecer prosaico, mas que deve entrar de vez nessa discussão: o uso das canetas emagrecedoras. No Brasil, 5,5% da população já usa GLP-1 (como Ozempic e Mounjaro), segundo levantamento da Euromonitor, uma das principais empresas de pesquisa de mercado e inteligência estratégica do mundo. E com a perda da patente do Ozempic e a chegada dos genéricos, esse número vai crescer.
Com tanta gente usando tais medicamentos, cai a quantidade ingerida de alimento. Dados da KPMG mostram que adultos em uso de GLP-1 consomem 21% menos calorias, em média, e gastam quase um terço menos em supermercados. E se as festas não ajustam o volume oferecido, é mais comida jogada fora.
Esse desperdício em eventos sociais é só um item no fim da longa linha do problema. A FAO calcula que 13% dos alimentos se perdem entre a colheita e o varejo e, depois, são mais 19% de perdas, incluídos o comércio, restaurantes e as cozinhas das pessoas. E do total jogado fora, a estimativa é que 60% ocorrem em âmbito doméstico.
O contraponto dado pela própria FAO vem do número de pessoas com fome no mundo. Em 2024, uma a cada 12 pessoas não tinha o que comer e cerca de 28% da população sofria com insegurança alimentar moderada ou grave.
Essa contabilidade ainda precisa considerar o impacto ambiental. A perda e o desperdício de alimentos geram entre 8% e 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, o que exacerba os efeitos nocivos das mudanças climáticas que, por sua vez, agravam as perdas nos ciclos subsequentes. É um círculo vicioso que se retroalimenta e gera uma espiral cada vez mais preocupante.
O óbvio é que, ao produzir alimentos que não são consumidos, se desperdiça recursos valiosos como terra, água, energia, mão de obra e dinheiro. Além do desperdício, não podemos esquecer que parte dos alimentos não chega às bocas que precisam devido à desigualdade social, de renda e de oportunidades.
Existe uma ampla percepção que uma parcela dos alimentos que chega aos restaurantes não cumpre a sua função de nutrir. Uma pesquisa com 50 mil trabalhadores e mais de1.400 restaurantes em 22 países, entre os quais o Brasil, revelou que 91% dos brasileiros se incomodam com o desperdício nesses estabelecimentos, segundo o Barômetro da Ticket. É um indicador que encoraja o movimento por práticas mais sustentáveis. Dos estabelecimentos ouvidos, 78% disseram que já adotam alguma medida nesse rumo.
O ‘fator Mounjaro’ já foi detectado por 61% dos empresários do setor, conforme pesquisa recente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que constatou mudanças no padrão de consumo. Se antes o peso da refeição variava de 400g a 500g, hoje a redução é de cerca de 100g por prato. O interesse por proteínas e saladas aumentou, assim como por bebidas não alcoólicas ou com menor teor. Restaurantes mais antenados já oferecem a opção ‘menu Mounjaro’, menor e mais proteica.
Seja para atender consumidores em tratamento de saúde ou com foco no desperdício zero, os restaurantes colaboram quando criam porções de tamanhos variados, permitem compartilhamento dos pratos, que um menu kid seja servido a um adulto ou idoso com menos apetite, quando ofertam recipientes para levar para casa sobras de alimentos e que suas receitas aproveitam os ingredientes ao máximo.
Na frente doméstica o desafio começa na compra com propósito, baseada nas porções por pessoa e, de preferência, com frutas e legumes da estação e de produção local. O controle dos estoques e o armazenamento adequado são essenciais, assim como a utilização integral dos alimentos. Isso diminui a produção de resíduos e o que sobrar ainda pode ser usado em compostagem para a adubação de plantas.
Voltando ao mundo das festas e dos eventos corporativos do início da conversa, uma pesquisa mediu, no ano passado, o desperdício nesse segmento nos Estados Unidos e chegou a 55 mil toneladas por ano, um prejuízo de US$ 330 milhões, conforme estudo publicado pela WWF e ReFed, ONG que atua contra o desperdício.
No Brasil o setor de eventos movimentou R$ 813,5 bilhões em 2024 (Sebrae/ABEOC/FIEC). Não se conhece a escala do desperdício, mas se sabe que onde mais se perde é nos centros de eventos, conforme o relatório Venue Sustainalytics. E o que mais vai para o lixo são petiscos de coffee break – bandejas de frios, pães, molhos, geleias e frutas. E costuma gerar sobras quando há mais de duas proteínas.
Contra o desperdício, vale estudar as mudanças comportamentais de consumo e de mercado e adotar técnicas eficientes para evitar perdas em todas as etapas. E vale, mais do que nunca, manter tradições familiares e entre amigos como a de dividir, ao fim dos encontros, a comida em potes plásticos que se enchem de sabor, afeto e amizade. E esse é um dos códigos sociais em que a abundância é simplesmente compartilhada, uma regra que ninguém se importa se está validada em algum manual obsoleto de etiqueta social.
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