COLUNA

Francisca Medeiros

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Safra de arroz menor, os impactos na mesa e no campo

Foto: Secom-MT

Mato Grosso é um dos estados onde, percentualmente, haverá um dos maiores recuos na produção de arroz do país na safra em andamento. O volume esperado é 37,7% menor, conforme levantamento da Conab. No Brasil, o cenário também é de refluxo, mas o consumidor não tem tanto o que se preocupar de imediato quanto ao abastecimento e preços. O produtor, porém, tem uma série de alertas no radar: queda de preços, dificuldade de escoamento e conflitos geopolíticos, como o mais recente no Oriente Médio. São sinais de uma possível crise de renda no campo.

O Rio Grande do Sul é o maior produtor do cereal, responde por 70% do que é colhido em lavouras predominantemente irrigadas. Quanto ao arroz de sequeiro ou de terras altas, Mato Grosso assumiu a liderança na safra passada, posição que mantém no ciclo atual. Mesmo com a redução de produção, o estado ainda responderá por 40,8% do volume produzido no país nesta modalidade de cultivo.

Os agricultores mato-grossenses colocaram o pé no freio diante da perspectiva de retração dos preços pagos ao produtor, com impacto direto na rentabilidade, principalmente com o aumento dos custos operacionais e logísticos com a subida no preço do diesel e do frete, que se agravaram agora com o conflito no Oriente Médio.

Momentaneamente, os preços estão conseguindo se manter sustentados por causa do atraso da colheita no Mercosul e da intervenção pontual do governo. Mas à medida que a colheita avançar, com pico de oferta mais para o fim do mês, a tendência é que os preços caiam. O ano de 2025 começou com queda de 26% nos preços e a perspectiva é que essa tendência se mantenha.

Como socorro emergencial, a Conab liberou R$ 73,6 milhões para apoiar a comercialização e escoamento de 300 mil toneladas das regiões produtoras para as consumidoras. Medida que inclui os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão. A maior parte dos recursos – R$ 61,3 milhões – será para escoar 250 mil toneladas de arroz gaúcho.

O arroz teve, historicamente, papel importante na agricultura de Mato Grosso. Até os anos 1980 era a cultura de abertura de área, mas foi perdendo espaço para a soja e o milho que se mostraram mais rentáveis no modelo empresarial de cultivo de larga escala e que se tornaram as commodities que deram ao estado protagonismo econômico no mercado de grãos.

E para além da importância enorme na agricultura familiar, o arroz tem espaço na agricultura comercial como opção de segunda safra e na recuperação de áreas de pastagens degradadas. A rotação de culturas é vantajosa no rompimento do ciclo de fungos do solo e na produção de um bom volume de palhada que também ajuda na proteção do solo e na fertilidade. As culturas principais que vêm em sequência, normalmente soja e algodão, se beneficiam com a melhoria da sanidade e da produtividade.

A pesquisa faz o seu papel ao oferecer cultivares viáveis e adaptadas para os agricultores mato-grossenses. A unidade da Embrapa em Sinop trabalha no melhoramento da cultura e testa mais de 1.200 materiais para imprimir maior resistência a doenças e que favoreçam o manejo das plantas invasoras e, claro, que entreguem produtividade e grãos de qualidade para a indústria e os consumidores.

É natural o ajuste dos investimentos feitos pelos agricultores diante dos sinais de um mercado menos remunerador. Ao governo cabe manter foco na pesquisa e no uso dos mecanismos disponíveis para não comprometer a oferta e o preço nas gôndolas dos supermercados. Com o aporte anunciado de R$ 73,6 milhões, o governo federal diz que já destinou ao setor R$ 716,8 milhões, totalizando uma movimentação de 1,13 milhão de toneladas do cereal. E é também essencial investir mais em uma rede de armazenamento mais efetiva.

Uma questão que vem impactando há mais tempo o mercado do arroz é a mudança nos hábitos alimentares dos brasileiros e sua rotina corrida, com mais refeições fora de casa e inclusão de fast-food. Uma pesquisa da Embrapa detectou que nos últimos 20 anos a queda de consumo per capita de arroz foi de 25%, saindo de 47 para 35 quilos por ano. O feijão também teve queda, mas menos intensa, de 17,5% no período.

Até o momento, o cenário para os consumidores é de uma certa tranquilidade, tanto quanto à oferta, quanto aos preços. Mas a crise no Oriente Médio pode bagunçar este quadro, primeiramente com a pressão sobre o preço do diesel, essencial em toda a cadeia produtiva. O governo diz que o estoque de passagem de arroz é suficiente para garantir o abastecimento interno e manter os preços sob controle nesse primeiro semestre.

O Brasil produz mais arroz do que consome e parte da produção vai para o exterior. No ano passado os embarques totalizaram 1,5 milhão de toneladas, gerando receita de US$ 457 milhões, um aumento de 13%. Mas houve redução de 18% em faturamento comparado ao ano anterior. Os principais destinos foram Senegal, Venezuela e México. Para a safra 2025/26 a previsão inicial era de aumento das exportações para 2,1 milhões de toneladas. Mas as incertezas geopolíticas podem mexer nesse resultado, com a instabilidade política na Venezuela e, agora, com o conflito no Oriente Médio que ganha escala.

Toda essa crise impacta diretamente no mercado de fertilizantes e de energia, o que vai ser sentido nos custos dessa safra que está em andamento e, dependendo da duração, poderá chegar com mais força no próximo ciclo produtivo e às mesas dos consumidores. São as questões porteira afora que podem mexer no prato de comida de todos.

 

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