

Vulnerável, pintado vira prioridade internacional para proteção
A proteção do pintado agora é de interesse internacional. O peixe foi incluído em uma lista da ONU das espécies migratórias consideradas vulneráveis. Na prática, esse reconhecimento obriga os países a cooperarem entre si para monitorar e proteger a espécie. E reconhece a urgência para o combate às ameaças a esse peixe de alto valor ambiental, econômico e social, que é alimento de comunidades tradicionais e simboliza o que tem de mais autêntico na culinária de estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A inclusão foi aprovada na semana passada na plenária da 15ª Conferência das Partes da Convenção das Organizações das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias (COP15), realizada em Campo Grande (MS), com a participação de mais de 130 países. A pesca não fica proibida, mas o status de vulnerável indica aos países para se articularem conjuntamente nas pesquisas e planos de manejo que mantenham as populações em níveis seguros.
É uma estratégia mais que bem-vinda porque o pintado desconhece fronteiras quando percorre rios que passam por diferentes países. Em todo o trajeto enfrenta ameaças crescentes, como o represamento dos rios para a construção de barragens e a pesca predatória.
A lista da ONU trata do Pseudoplatystoma corruscans, o nome científico do pintado ou surubim que se desenvolve e reproduz naturalmente nos rios, não dos criados em cativeiro. Esse bagre de couro, que é um dos grandes migradores de água doce da América do Sul, é encontrado na Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Ele é chamado de uma espécie de piracema porque nada contra a correnteza por longas distâncias para se reproduzir. Uma jornada com muitos empecilhos porque, além das barragens e pesca excessiva, nas rotas migratórias aparecem perigos como a hibridização, a contaminação por agrotóxicos e as mudanças climáticas.
Assim o cerco vai se fechando para o pintado de vida livre que depende de estímulos ambientais, como o aumento do nível das águas e temperatura, para a maturação das células sexuais, a fecundação e o nascimento das larvas que se tornarão alevinos e os novos peixes que repovoarão os rios. A quebra desse ciclo vital desequilibra os ambientes aquáticos, a economia e o modo de vida de populações inteiras, ameaçadas até pela insegurança alimentar.
Estudos comprovam que as populações de pintado nos rios diminuíram a uma taxa de pelo menos 30% nos últimos 45 anos. A espécie já foi das mais abundantes nas bacias dos rios São Francisco e no Alto Paraná, mas a instalação de grandes hidrelétricas fragmentou rios, bloqueou os caminhos naturais e transformou trechos de movimento rápido e constante das águas em reservatórios, onde a espécie não consegue se adaptar bem.
Na Bacia do Alto Paraguai, o pintado ainda tem uma das populações mais abundantes, normalmente é a primeira ou a segunda espécie mais capturada, segundo monitoramento feito pela Embrapa Pantanal.
Claro que o pintado não está isolado em meio a tantas ameaças. Durante a COP15 foi lançado um estudo global que revelou a situação crítica para centenas de espécies de peixes. Enfrentam o risco de extinção 97% dos peixes de água doce do mundo listados na Convenção da ONU e, desde os anos 1970, a perda populacional estimada é de 90%. Na América do Sul, são 55 espécies em situação mais crítica.
Voltemos ao pintado, pela sua proximidade com nossas vidas e importância ecológica, social e econômica. Ele ocupa o topo da cadeia alimentar nos rios, se alimenta de peixes menores e funciona como um indicador da saúde ambiental. Nas pescarias, por ser um animal forte e bravo, atrai os praticantes da pesca esportiva que movimentam o turismo.
Na culinária, é peixe nobre. Tem carne clara, de textura firme, sabor suave, com teor de gordura leve e sem espinhas. De preparo fácil, é o ingrediente principal de pratos regionais emblemáticos.
O melhor exemplo está em Cuiabá, com sua Mojica de Pintado, cuja origem indígena remonta ao século XVII, quando a alimentação dependia praticamente dos ingredientes que havia por perto de casa, como a mandioca, usada para engrossar o caldo, e o pescado retirado diariamente do rio Cuiabá.
Em Cáceres, à margem do Rio Paraguai, o Filé de Pintado à Bororo se tornou, oficialmente, o prato típico do município com a aprovação do projeto de lei de autoria da Mesa Diretora da Câmara Municipal em novembro passado. O prato é feito com filés temperados, empanados e fritos, cobertos com creme de milho e ainda leva queijo para gratinar no forno.
Em Corumbá, também banhada pelo Paraguai, o Pintado a Urucum é um símbolo da culinária suk-mato-grossense. O filé é empanado e frito e servido com um molho cremoso à base de urucum, leite de coco e tomate e finalizado com queijo para gratinar. Esses são só alguns exemplos de como o peixe é usado em uma cozinha que tem história, preserva suas raízes e toca a alma.
O que se espera é que essa maior visibilidade das ameaças ao pintado, oficialmente reconhecidas em documento da ONU, seja usada para a reversão desses riscos. E que a espécie tenha prioridade em projetos de proteção e conservação pela sua importância ecológica, nas economias locais e por ser um verdadeiro patrimônio cultural imaterial para tanta gente.
Compartilhe
Assine o eh fonte
Tudo o que é essencial para estar bem-informado, de forma objetiva, concisa e confiável.
Comece agora mesmo sua assinatura básica e gratuita:
