COLUNA

Francisca Medeiros

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O ajuste de Milei acende alerta no Iguaçu

Foto: José Fernando Ogura/Arquivo AEN

De olho no déficit fiscal zero, o governo Milei cortou recursos para os 39 parques nacionais argentinos, entre eles o Parque Nacional Iguazu, que é o trecho ao sul da mesma floresta subtropical protegida do lado brasileiro no Parque Nacional do Iguaçu. Ambos dividem entre si as fabulosas Cataratas do Iguaçu e, do ponto de vista ambiental, o corte de recursos do lado de lá interessa – e preocupa – o lado de cá, até porque flora e fauna não conhecem fronteiras.

Além dos riscos ao ecossistema compartilhado por uma mesma área contínua de Mata Atlântica e mesma bacia hidrográfica, um possível descontrole de um lado pode respingar no outro. Do lado brasileiro, pode vir, por exemplo, uma sobrecarga de visitantes e, indiretamente, sofrer reflexos negativos com o monitoramento deficiente da fauna e no combate a incêndios florestais do país vizinho.

No total, os dois parques somam 250 mil hectares – 185 mil ha brasileiros e 67,62 argentinos – de floresta subtropical, unificados sob o título de Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.

O diretor-geral da Fundação Vida Silvestre Argentina, Manuel Jaramillo, em artigo no jornal La Nacion disse que “a motosserra chegou aos parques nacionais” e que esse ajuste fragiliza a prevenção de incêndios, a conservação ambiental e a capacidade do Estado de proteger um dos patrimônios mais valiosos do país. O corte de verba é superior a 2.500 milhões de pesos.

Historicamente, a preocupação com a preservação dessa região começou na Argentina, com a encomenda do Ministério do Interior, em 1902, de um levantamento detalhado das cataratas e da biodiversidade do entorno, que foi a base para a lei que criou o parque em 1934.

Já a criação do parque brasileiro começou com o empurrão de um homem ilustre, nada menos que Alberto Santos Dumont que conheceu a região em 1916, se encantou, e usou seu prestígio para convencer o governo do Paraná a desapropriar uma área de 1.008 hectares. E em 1939 veio o decreto de Getúlio Vargas criando o parque; o título de Patrimônio Mundial Natural da Unesco foi dado em 1984.

Na busca por arrecadação, o governo argentino já tinha aumentado no final do ano passado o valor da entrada para estrangeiros em todos os parques nacionais e habilitou o registro de prestadores privados para oferecer atividades turísticas nas unidades. Antes disso, o Ministério de Desregulamentação já havia eliminado a exigência de guias nas visitações.

Esse contexto de cortes de gastos tem como pano de fundo o cumprimento do acordo fechado por Milei com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que emprestou US$ 44 bilhões ao país e, em contrapartida, impôs medidas rígidas de controle financeiro e de metas econômicas, como a eliminação do déficit fiscal, redução da inflação e reconstrução das reservas cambiais do Banco Central.

A área do Parque Iguazu tem os maiores remanescentes de Mata Atlântica do interior e se conecta com fragmentos florestais semelhantes no Brasil. Este contínuo florestal inclui espécies raras e ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, cujo maior número de indivíduos da Mata Atlântica transita nos dois parques. Entre outras espécies em risco estão a anta, a jaguatirica, o gato-mourisco, o tamanduá-bandeira e o jacaré-do-papo-amarelo. E é no Iguazu que floresce o ceibo, a “flor nacional” argentina e uruguaia.

Os especialistas destacam o valor dos serviços ambientais prestados pelos parques, muito além da contemplação turística e lazer. Eles ajudam na regulação ambiental por meio da fixação de carbono e produção de biomassa, na manutenção de habitats de reprodução, regulação do ciclo hidrológico e na dispersão de sementes. São refúgios de diversidade biológica e genética.

O Parna do Iguaçu está inserido em uma das maiores e mais importantes reservas mundiais de água subterrânea – a formação Botucatu/Aquífero Guarany. E abriga mais de 2 mil espécies de animais e plantas, muitas endêmicas, encontradas somente ali. Das plantas terrestres as samambaias remetem a um ambiente pré-histórico e, entre as árvores, vivem os últimos indivíduos de palmito-juçara nativos da Mata Atlântica, assim como as raras peroba-rosa e araucárias.

Na fauna a onça-pintada é protagonista como predadora de topo da cadeia alimentar. Entre as aves estão tucanos, pica-paus, beija-flores, gaviões, o papagaio-de-peito-roxo e o gavião-real. A presença do macuco é emblemática porque é uma ave que só sobrevive em ambientes de mata primitiva.

Além de todos esses benefícios, há ainda os serviços culturais, com os parques se tornando palcos para ações de educação ambiental e alvos de pesquisas científicas.

A arrecadação do Parque Nacional Iguazu ajuda a sustentar outros parques no país. E a preocupação de Manuel Jaramillo com os cortes de recursos é com a possível redução da capacidade do Estado de monitorar o ambiente, de assistir os visitantes e ainda de capacitação e de articulação técnicas.

Do lado brasileiro, há um programa de reestruturação e modernização do Parque Iguaçu, que é administrado pelo ICMBio e, desde 1999, os serviços de visitação turística estão sob concessão, sendo a empresa Urbia Cataratas S.A. a encarregada por esta área desde 2022. O ‘Parque 2030’ prevê investimento de R$ 600 milhões até 2030 com foco no turismo responsável e conservação da biodiversidade.

 

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