O medo é um ótimo cabo eleitoral

Fátima Lessa*

Em ano eleitoral, o medo ganha espaço no discurso político. E não é difícil entender por quê: poucas coisas mobilizam tanto o eleitor quanto a sensação de insegurança. O problema começa quando o medo deixa de ser uma questão a ser enfrentada pelo Estado e passa a ser tratado como instrumento de campanha. Segurança pública se torna, então, terreno fértil para promessas de endurecimento penal, aumento de penas e soluções apresentadas como simples para um problema que está longe de ser simples. Segurança é coisa séria demais para virar slogan eleitoral.

Segundo levantamento da Agência Pública, 1.229 profissionais ligados a instituições policiais e militares são candidatos nas eleições deste ano, o equivalente a 5,99% do total de candidaturas registradas. Em 2022, eles representavam 6,71%.

Em Mato Grosso, segundo levantamento publicado pela Gazeta Digital com base em dados da Justiça Eleitoral, são 18 policiais entre os candidatos que disputam as eleições de 2026. Entre eles estão os deputados federais que buscam a reeleição: Coronel Assis e Coronel Fernanda, ambos do PL.

A presença de profissionais das forças de segurança na política não é, por si só, um problema. Eles têm todo o direito de disputar eleições e participar do debate público. A questão é transformar essa experiência profissional em argumento suficiente para um problema que é muito maior do que a atividade policial. Segurança pública não é apenas polícia. E combater o crime não é apenas prender.

Punir é necessário. Mas basta?

Crimes hediondos devem ser punidos. Crimes violentos precisam receber resposta do Estado. Vítimas têm direito à Justiça e criminosos precisam responder por seus atos. A questão é outra: aumentar a punição, por si só, reduz a criminalidade?

Em artigo publicado na Revista Fórum, Chico Cavalcante chama atenção para uma distinção importante: a severidade da pena não se confunde com a certeza da punição. A investigação, a produção de provas, a inteligência policial e a capacidade do sistema de Justiça de responsabilizar quem comete crimes são, portanto, questões centrais para que a punição aconteça.

Uma coisa é defender pena mais severa. Outra é afirmar que aumentá-la fará aquela conduta deixar de acontecer. Se fosse tão simples, bastaria aumentar as penas a cada eleição.

O Brasil já endureceu sua legislação penal, ampliou o encarceramento e aumentou a repressão em diferentes momentos. Ainda assim, o crime organizado não desapareceu, as facções não deixaram de existir e a violência não foi eliminada.

A segurança pública tem uma característica que a torna especialmente vulnerável ao discurso político: ninguém precisa inventar o medo. Ele existe. Ele existe para quem convive com assaltos, perdeu alguém para a violência, que trabalha sob risco ou já foi vítima de um crime. Por isso, transformar esse medo em capital eleitoral é tentador.

A fórmula é conhecida: apresenta-se um inimigo, promete-se endurecimento e oferece-se ao eleitor a sensação de que existe uma solução simples para um problema complexo.

Não se trata de defender impunidade, mas de perguntar o que efetivamente funciona. E essa pergunta deveria ser feita a qualquer candidato, independentemente de sua profissão, partido ou ideologia.

O candidato deveria falar de investigação

Talvez seja menos emocionante falar de investigação criminal do que prometer punição mais dura. Não rende tanto vídeo para rede social falar em melhorar a perícia, integrar bancos de dados, investir em inteligência, aperfeiçoar a investigação de homicídios e combater o fluxo financeiro das organizações criminosas.

Mas é justamente aí que está a parte menos espetacular e mais importante da segurança pública.

O eleitor deveria perguntar: Como investigar melhor? Como aumentar o esclarecimento dos crimes? Como combater organizações criminosas que não respeitam fronteiras? Como prevenir a violência antes que ela aconteça?

São perguntas menos fáceis de responder com um slogan. Talvez por isso apareçam menos nos palanques.

Segurança não pode ser propriedade eleitoral

A presença de profissionais das forças de segurança nas disputas eleitorais pode ser legítima. Mas não deveria transformar a segurança pública em uma espécie de território eleitoral exclusivo de quem usa uma patente, uma função ou uma trajetória profissional como identidade política.

Não importa se a promessa vem da direita, da esquerda ou do centro, nem qual é a profissão de quem disputa a eleição. Segurança pública não deveria ser medida pela dureza do discurso, mas pelos resultados da política pública.

 

**Fátima Lessa  é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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