Tem gente que vale um pequi roído
Fátima Lessa*

Gisela Simona construiu sua trajetória pública com um discurso que, durante muito tempo, esteve associado à defesa dos direitos do consumidor e à ideia de justiça social.
Foi no Procon que ganhou notoriedade e projeção política. Depois, passou a ocupar outro campo político. Até aí, política é política. Gente muda de partido, muda de discurso, muda de lado e, em Mato Grosso, isso já nem deveria causar espanto.
O problema é a conta que fica para quem construiu a própria imagem pública justamente em torno da defesa dos vulneráveis.
Agora, Gisela aceita ser vice na chapa de um candidato que já foi acusado pela ex-mulher de violência doméstica, chegou a ser indiciado pela Polícia Civil de Santa Catarina por lesão corporal no âmbito doméstico e teve contra si um pedido de medida protetiva. O caso acabou arquivado. Pivetta sempre negou as acusações.
Para quem construiu sua trajetória falando em defesa das mulheres, a escolha não deixa de provocar uma pergunta: qual é o limite entre pragmatismo político e incoerência?
E há uma história recente nessa composição que torna tudo ainda mais interessante.
Quando a vaga de vice começou a ser disputada, Gisela estava entre os nomes cogitados. Mas, nos bastidores, havia uma diferença importante: Mauro Mendes já tinha seu escolhido — Fábio Garcia. Pivetta, por sua vez, teria interesse em Janaína Riva. O resultado foi que, na disputa interna pelo espaço, duas mulheres acabaram preteridas: Janaína e Gisela.
Fábio foi o escolhido.
Gisela ficou de fora.
Janaína também.
É curioso como funciona a política.
Agora, depois que Fábio Garcia se tornou alvo da Operação Heritage, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de irregularidades em um acordo envolvendo o governo de Mato Grosso e a Oi, e deixou a disputa pela vice, Gisela reaparece. Desta vez, para ocupar a vaga que antes não foi dela.
A vaga que uma mulher não conseguiu quando o grupo tinha outras opções passa a ser oferecida a ela quando o homem escolhido para ocupá-la deixa o caminho livre.
Porque não basta ser mulher para representar as mulheres. Não basta ser uma mulher negra para automaticamente representar o movimento negro.
Representatividade não é um crachá que se coloca na roupa em época de eleição.
E essa história de que ela “agrega porque é mulher preta” também merece uma boa conversa.
Agrega a quem? A qual movimento? A quais organizações? A quais pautas? Porque representação política não se constrói apenas com identidade. Constrói-se com presença, participação, compromisso e, sobretudo, coerência.
Mas há algo ainda mais incômodo nessa história.
Ao aceitar esse papel, Gisela passa a integrar uma disputa pelo poder entre grupos que há décadas se revezam no comando da política de Mato Grosso. Muda a fotografia, muda a composição da chapa, entram novos nomes, mas a estrutura permanece praticamente a mesma.
E aí vem a contradição que não dá para ignorar: justamente nesse grupo ao qual ela agora se incorpora, não parece haver muito espaço real para uma mulher negra exercer protagonismo político.
Ela pode ocupar a vice. Pode aparecer na propaganda. Pode ser apresentada como símbolo de diversidade, como argumento de “representatividade”. Mas protagonismo é outra coisa.
E talvez essa seja uma das contradições da velha política: colocar uma mulher negra na fotografia para transmitir uma imagem de renovação enquanto o centro das decisões permanece concentrado nos mesmos grupos políticos.
No fim, a questão não é Gisela ser mulher, negra, de direita ou de esquerda.
A questão é saber se ela está ocupando um espaço de poder ou apenas emprestando sua imagem para uma estrutura de poder que continuará sem espaço para ela.
E isso, para quem construiu a vida pública falando em justiça social, é uma pena.
Porque mudar de lado é uma escolha política.
Abrir mão da própria autonomia para caber no projeto de outros é outra história.
**Fátima Lessa é jornalista e mestra em política social. Trabalhou na imprensa de São Luís, cobrindo Cidades no jornal O Imparcial e O Estado do Maranhão. Também atuou no jornal A Gazeta e no extinto jornal Nosso Tempo, em Foz do Iguaçu (PR), nas Três Fronteiras: Brasil-Paraguai-Argentina. Folha do Estado e A Gazeta, em Cuiabá. Atua como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.
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