COLUNA

Francisca Medeiros

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Biocombustíveis sobem no palanque

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Gasolina ou álcool? Já se vão 23 anos que essa pergunta abre a conversa entre frentistas e motoristas no Brasil, o que se tornou possível com os motores flex. Em retrospecto, 1979 foi o ano de uma novidade tecnológica que sinalizou o imenso potencial dos biocombustíveis com o carro movido somente a álcool, o pioneiro Fiat 147, o “cachacinha”. Valendo-se ainda mais do retrovisor, se chega a 1931, ano em que o governo federal decretou que toda a gasolina importada receberia a adição de 5% de álcool. De lá para cá, uma revolução bancada por governantes, pesquisadores, o campo e montadoras trouxe à atual mistura de 32% de etanol à gasolina. Mesmo com a óbvia vantagem de diminuir a dependência dos combustíveis fósseis, os biocombustíveis foram levados, de uma forma crítica, ao palanque da campanha à Presidência da República na semana passada. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) admitiu que, se eleito, pode rediscutir a mistura. E a cadeia produtiva do etanol saiu em defesa uníssona do projeto nacional de biocombustíveis.

Entidades representativas dos plantadores e da indústria da cana, da bioenergia e do etanol de milho explicitaram em uma nota pública, divulgada na semana passada, o desagrado com o comentário. O documento defende com firmeza a “política de Estado construída ao longo de cinco décadas, sob governos de todas as orientações — do Proálcool ao RenovaBio e à Lei do Combustível do Futuro”.

O setor reforçou que há rigor técnico e testes antes da autorização pelo governo e Conselho Nacional de Política Energética das mudanças da mistura. Outro ponto que as entidades deixam claro é que há um diálogo permanente das autoridades com o setor produtivo e a indústria automotiva. Antes da chancela dos 32% foram feitos ensaios com 16 modelos de automóveis e 13 motocicletas, representativos da frota de 1994 a 2024 que concluíram “plena viabilidade, sem prejuízo ao desempenho ou ao consumidor”.

Em resposta à crítica do setor dos biocombustíveis, a campanha do candidato buscou o programa de governo entregue à Justiça Eleitoral para mostrar o compromisso dele com uma energia mais limpa. O documento fala em transformar o Brasil em potência de biocombustíveis e cita etanol, biodiesel e biogás, além de combustíveis avançados de nova geração, como HVO e SAF. Na sigla em inglês, o HVO é o Óleo Vegetal Hidrotratado, também conhecido como diesel verde ou diesel renovável. O Combustível Sustentável de Aviação (SAF) também é chamado de querosene verde ou biojet.

O plano promete fomentar a aplicação da Lei do Combustível do Futuro e oferecer linhas especiais de financiamento para empresas de biogás, que transformam resíduos em energia. E diz que vai fortalecer e ampliar o Programa Renovabio para o exterior, permitindo que o Brasil venda créditos de carbono ao mundo. No item “Agronegócio e Campo”, a promessa é de “transformar o campo em fonte de energia limpa” com articulação no Plano Safra de incentivos à produção de biomassa.

Após a fala de Flávio Bolsonaro se contrapor ao que está escrito em seu próprio plano de governo, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, também veio a público por meio de nota. Afirmou que na atual gestão mais de R$ 17 bilhões já foram aprovados para investimentos em biocombustíveis, o que é quase quatro vezes o volume registrado no governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, que somou R$ 4,4 bilhões.

O BNDES diz que os investimentos envolvem 17 projetos que vão ampliar em mais de 5 bilhões de litros por ano a produção nacional de etanol. “Também foram aprovados mais de R$ 1,7 bilhão em novas tecnologias, como motores híbridos flex e motores a etanol para máquinas agrícolas, com projetos da Volkswagen, Stellantis e Toyota. Além de financiar inovação, estamos atraindo centros de pesquisa e desenvolvimento para o nosso país”, explica Mercadante na nota.

O papel da ciência pública brasileira, por meio da Embrapa, na consolidação do projeto de biocombustíveis, é lembrado pelo BNDES. “É uma conquista construída por gerações e, hoje, uma das principais soluções do país para a transição energética e a descarbonização da economia”.

Nessa transição, o Brasil tem a vantagem de ter matéria-prima abundante e duas opções à mão: a cana e o milho. Nos últimos anos, o cereal tem ganhado importância e hoje já responde por quase 25% da produção de etanol do país. E Mato Grosso, como o maior produtor nacional do grão, tem atraído indústrias que buscam usufruir da proximidade com a matéria-prima e diminuição dos gastos com transporte.

O Brasil, que é o terceiro produtor mundial de milho, abriga 29 biorrefinarias que usam o cereal, 11 delas trabalham integradas também com a cana. Tem sido rápida a expansão dos projetos industriais que optam para ter somente o milho como base: mais 13 usinas de etanol de milho estão autorizadas no país e outras 14 já têm projeto de construção. E Mato Grosso é o endereço da maioria delas.

A verticalização da cadeia do milho dentro do estado traz para o produtor mais segurança por dar opções de venda e contribui diretamente na entrega de energia renovável para a sociedade, que é beneficiada pela diminuição das emissões de gases nocivos à atmosfera, que é compartilhada por todos.

 

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